A eleição de 2026 começa a ganhar um novo ingrediente nos bastidores de Mato Grosso: a disputa pelo controle da narrativa. À medida que pré-candidatos ao Governo e ao Senado intensificam articulações, também cresce o receio de que informações sobre adversários sejam levantadas, transformadas em material de ataque e espalhadas pelas redes sociais. Nesse ambiente, uma expressão antiga voltou a circular com força no meio político: o chamado “Comitê da Maldade”.
O termo é utilizado para descrever, de forma política, supostas estruturas destinadas a monitorar adversários, levantar informações e produzir conteúdos capazes de provocar desgaste eleitoral. Até o momento, porém, não há comprovação pública de que exista uma organização formal denominada “Comitê da Maldade”, tampouco elementos que permitam apontar quem estaria por trás de eventuais ações desse tipo. A existência da expressão, portanto, não deve ser confundida com a comprovação de uma estrutura clandestina.
A preocupação aumenta porque a disputa eleitoral de 2026 ocorre em um ambiente no qual as redes sociais ocupam papel central na formação da opinião pública. Um vídeo, uma denúncia, uma acusação ou até mesmo uma informação retirada de contexto pode circular rapidamente por grupos de mensagens e plataformas digitais.
Aliados dos senadores Jayme Campos e Wellington Fagundes afirmaram recentemente que os dois parlamentares estariam sendo alvo de uma sequência de ataques virtuais. Segundo esses interlocutores, conteúdos semelhantes teriam aparecido em diferentes plataformas, com o objetivo de atingir a imagem política dos dois.
Até agora, contudo, não foram apresentados publicamente elementos capazes de comprovar que os ataques fazem parte de uma estrutura organizada ou que existe um grupo específico coordenando as ações.
O mesmo tipo de preocupação já atingiu o grupo ligado ao governador Otaviano Pivetta e ao ex-governador Mauro Mendes. Em abril, o então secretário-chefe da Casa Civil, Mauro Carvalho, utilizou justamente a expressão “Comitê da Maldade” ao comentar possíveis ataques contra integrantes do grupo governista.
Na ocasião, Carvalho defendeu uma disputa eleitoral baseada no debate de ideias e alertou para estratégias que, segundo ele, poderiam ter como objetivo desestabilizar candidaturas por meio de ataques pessoais e informações falsas.
O cenário ficou ainda mais sensível após a Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal e que colocou nomes ligados ao grupo de Mauro Mendes no centro de uma investigação.
Após a operação, integrantes do grupo político do ex-governador passaram a levantar questionamentos sobre as circunstâncias da investigação e chegaram a falar em possível perseguição política ou “armação”. Essas manifestações, entretanto, representam posicionamentos dos próprios envolvidos e não constituem uma conclusão das autoridades responsáveis pela apuração.
A operação investiga suspeitas relacionadas a um acordo envolvendo o Governo de Mato Grosso e a empresa Oi. Como em qualquer investigação em andamento, os citados possuem direito à defesa e à presunção de inocência.
O episódio, porém, demonstra como uma investigação policial pode rapidamente migrar para o terreno da disputa política. De um lado, adversários podem utilizar o caso para questionar a atuação de antigos gestores; de outro, os investigados podem argumentar que estão sendo vítimas de exploração política do episódio.
Com a campanha se aproximando, uma das principais preocupações entre as lideranças é que a disputa seja transformada em uma guerra de dossiês.
Processos judiciais, documentos públicos, decisões administrativas, declarações antigas e episódios da trajetória de políticos podem ser recuperados e utilizados durante a campanha. O problema surge quando essas informações são apresentadas fora de contexto ou acompanhadas de acusações que não foram comprovadas.
O risco aumenta quando o material começa a circular sem identificação clara da origem. Em grupos de WhatsApp, páginas anônimas e perfis criados especificamente para a campanha, uma acusação pode atingir milhares de pessoas antes mesmo que o alvo tenha oportunidade de apresentar sua versão.
Nesse tipo de cenário, a velocidade da informação pode se tornar uma arma política. Uma publicação compartilhada milhares de vezes pode produzir impacto eleitoral mesmo quando posteriormente se descobre que o conteúdo era falso ou estava distorcido.
A eleição de 2026 também terá um elemento que não tinha o mesmo peso em disputas anteriores: o avanço das ferramentas de inteligência artificial.
Áudios, imagens e vídeos podem ser manipulados com cada vez mais facilidade. Isso abre espaço para a produção de conteúdos falsos capazes de simular declarações, comportamentos ou situações que nunca aconteceram.
O desafio para candidatos, partidos, Justiça Eleitoral e eleitores será identificar rapidamente o que é verdadeiro e o que foi fabricado ou manipulado.
A legislação eleitoral estabelece regras para conteúdos digitais e para o uso de ferramentas capazes de interferir na percepção do eleitor. A Justiça Eleitoral também vem ampliando mecanismos de enfrentamento à desinformação.
Para as campanhas, isso significa que a disputa não deverá envolver apenas produção de conteúdo e divulgação de propostas. Monitoramento das redes, identificação de informações falsas e resposta rápida também devem ocupar espaço importante nas estratégias eleitorais.
Com a disputa pelo Governo e pelo Senado ainda em processo de definição, os principais grupos políticos de Mato Grosso podem se transformar em alvos de ataques.
Otaviano Pivetta, Wellington Fagundes, Mauro Mendes, Jayme Campos e outros nomes de expressão estão envolvidos em articulações que ainda podem resultar em mudanças de alianças, candidaturas e composições.
Quanto mais apertada for a disputa, maior tende a ser a importância da imagem dos candidatos. E é justamente nesse ponto que ataques, denúncias e informações negativas podem ganhar força.
O calendário eleitoral também começa a empurrar os grupos políticos para uma fase mais intensa de exposição. Sabatinas, entrevistas e debates devem aumentar o confronto direto entre os candidatos, criando novos espaços para questionamentos e respostas.
O crescimento da chamada “guerra de narrativas” coloca um desafio adicional para o eleitor. Uma acusação feita durante uma disputa política não equivale automaticamente à comprovação de um crime.
Da mesma forma, uma investigação não representa condenação. Um processo judicial não significa, por si só, culpa. E uma informação verdadeira pode ser apresentada de maneira distorcida quando retirada do contexto.
Por isso, documentos, decisões judiciais e manifestações oficiais passam a ter peso ainda maior durante a campanha. A diferença entre informação e propaganda negativa pode estar justamente na possibilidade de verificar a origem e a autenticidade do conteúdo.
O eleitor também terá papel decisivo nesse processo. Antes de compartilhar uma denúncia ou acusação, a verificação da informação pode impedir que conteúdos falsos ou manipulados ganhem alcance.
A expressão “Comitê da Maldade” pode se tornar uma das mais repetidas durante a campanha de 2026 em Mato Grosso. O termo já aparece em diferentes grupos políticos e é utilizado para denunciar aquilo que seus integrantes consideram uma estratégia de ataques.
Até agora, porém, não há comprovação pública de uma organização formal com esse nome. O que existe é uma disputa política cada vez mais intensa e o temor de que ela seja acompanhada por estruturas de produção e disseminação de conteúdos negativos.
O desafio será impedir que a eleição seja decidida apenas pela capacidade de um grupo em produzir ou espalhar ataques.
Em uma disputa marcada por nomes fortes, alianças ainda indefinidas e forte presença digital, a guerra política deve aumentar nos próximos meses. Mas, para além dos embates, uma regra continua valendo: acusação precisa de prova, denúncia precisa ser apurada e investigação não pode ser tratada como condenação.
É nesse ambiente que Mato Grosso chegará à eleição de 2026, em uma disputa na qual o voto poderá ser influenciado não apenas pelas propostas apresentadas pelos candidatos, mas também pela batalha diária travada nas redes sociais.



