Em meio aos desafios enfrentados por sua pré-campanha presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem intensificado o discurso voltado à segurança pública como estratégia para dialogar tanto com sua base mais fiel quanto com eleitores independentes. Nesta quinta-feira, em São Paulo, o parlamentar deve apresentar um conjunto de propostas para a área, reforçando a defesa de medidas mais rígidas contra organizações criminosas.
A pauta ganhou protagonismo nos últimos meses e passou a ocupar espaço central na construção da imagem do pré-candidato. Entre as bandeiras defendidas por Flávio está o enquadramento de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, proposta que seus aliados consideram uma demonstração de firmeza no combate ao crime organizado.
A estratégia foi reforçada nesta semana após a divulgação de um vídeo produzido com inteligência artificial em que o senador aparece ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro em uma ação fictícia contra grupos criminosos. A publicação serviu como uma prévia do anúncio das propostas que serão detalhadas durante o lançamento do plano de segurança.
Nos bastidores da campanha, entretanto, o tom adotado tem provocado divergências. Enquanto setores mais alinhados ao bolsonarismo tradicional defendem uma postura dura e alinhada às bandeiras históricas da direita, integrantes da equipe responsáveis pela estratégia eleitoral avaliam que a candidatura precisa ampliar o diálogo com eleitores moderados para crescer nas pesquisas.
A discussão ocorre em um momento em que levantamentos internos indicam que a maior parte do eleitorado bolsonarista já estaria consolidada em torno da candidatura de Flávio. Com isso, o foco passa a ser a conquista de eleitores que não se identificam integralmente nem com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem com o estilo político que marcou o governo de Jair Bolsonaro.
Nos últimos meses, o senador tem procurado destacar diferenças em relação ao pai. Em entrevistas e eventos públicos, passou a defender pautas com maior apelo social, como a manutenção do Bolsa Família e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil mensais. Também reconheceu que o governo Bolsonaro cometeu erros na relação com a imprensa e afirmou que pretende manter um diálogo mais institucional com os veículos de comunicação.
Por outro lado, em encontros com segmentos conservadores, especialmente ligados ao agronegócio e à segurança pública, o parlamentar mantém um discurso mais rígido. Entre as propostas defendidas estão a redução da maioridade penal, a castração química para condenados por crimes sexuais e o endurecimento das ações de combate às facções criminosas.
A coexistência dessas duas linhas de comunicação reflete um debate interno sobre os rumos da campanha. De um lado, há quem defenda a construção de uma imagem mais moderada e capaz de reduzir resistências fora do núcleo bolsonarista. De outro, aliados ligados à ala ideológica do movimento avaliam que a candidatura não pode abrir mão das pautas que consolidaram a base de apoio do ex-presidente.
Apesar das diferentes avaliações, a coordenação da pré-campanha tem tratado as divergências como naturais dentro de um grupo político amplo. O objetivo comum, segundo interlocutores, é encontrar um equilíbrio entre a preservação da identidade conservadora da candidatura e a ampliação do alcance eleitoral junto ao eleitorado indeciso.
A busca por esse posicionamento ocorre paralelamente a mudanças na estratégia de comunicação. Recentemente, o publicitário Eduardo Fischer assumiu oficialmente a coordenação da campanha, substituindo a linha adotada até então por Marcello Lopes, responsável por conteúdos mais descontraídos nas redes sociais. A expectativa é que a nova equipe ajude a consolidar uma narrativa capaz de unir diferentes perfis de eleitores em torno da candidatura.



