O abastecimento de água em Várzea Grande é um problema histórico, mas que, segundo avaliação de lideranças políticas do município, se agravou significativamente nos últimos três a quatro anos. O crescimento acelerado da cidade, sem planejamento urbano adequado, teria contribuído para a expansão desordenada de bairros em diferentes regiões, o que aumentou a pressão sobre uma rede de distribuição considerada antiga e defasada.
Embora o município conte com diversas estações de tratamento de água, o desafio, de acordo com essa análise, não estaria na produção, mas na capacidade de distribuição, já que a infraestrutura atual não conseguiria acompanhar o volume e a distância das novas áreas habitadas.
Diante desse cenário, volta ao centro do debate a discussão sobre possíveis modelos de gestão do serviço, incluindo concessão ou terceirização, como alternativas para enfrentar o déficit estrutural e garantir maior eficiência no abastecimento à população.
Centro Oeste Popular – Em relação ao abastecimento em Várzea Grande, município onde o senhor já atuou como prefeito, o senhor afirmou que a principal deficiência não está na captação, mas na distribuição. Na sua avaliação, quais medidas são necessárias para superar esse gargalo e garantir que o fornecimento chegue de forma regular e eficiente a toda a população?
Júlio Campos – Esse problema de abastecimento em Várzea Grande já vem de alguns anos, mas de três, quatro anos para cá piorou bastante. Isso aconteceu principalmente porque a cidade cresceu muito sem planejamento, com os bairros se espalhando de forma desordenada, desde a região do rio Cuiabá até áreas mais distantes, chegando praticamente ao Livramento e avançando também para regiões como Cristo Rei e Chapéu do Sol.
É uma cidade muito extensa, muito alongada, e essa ocupação desordenada acabou dificultando demais a distribuição da água. Em muitos casos, são bairros que ficam distantes, com áreas ainda sem estrutura adequada ao redor, o que prejudica a chegada do abastecimento.
Além disso, a rede de distribuição é antiga, especialmente na região central. Parte dessa estrutura foi implantada ainda na década de 1950 e, ao longo do tempo, a cidade foi crescendo e recebendo novas estações de tratamento de água em diferentes gestões, mas sem que a rede de distribuição acompanhasse esse crescimento na mesma proporção.
Hoje, Várzea Grande até produz um grande volume de água tratada, com várias estações em funcionamento, mas o problema não está na produção, e sim em levar essa água até as casas. Os canos são antigos e, em muitos pontos, não têm capacidade de pressão e vazão para atender a demanda atual, e por isso a água não chega como deveria em diversas regiões.
Diante disso, entendo que o caminho mais viável hoje é avançar para um modelo de concessão ou terceirização do serviço, como forma de modernizar o sistema e resolver definitivamente esse gargalo da distribuição.
Centro Oeste Popular – A prefeita Flávia Moretti anunciou ainda no início da gestão a realização de estudos para viabilizar a concessão dos serviços de abastecimento de água e esgoto em Várzea Grande. No entanto, até o momento, a população percebe poucos avanços concretos nesse processo. Diante disso, e considerando o cenário de tensão entre o Executivo e a Câmara Municipal, o senhor avalia que existe ambiente político suficiente para conduzir uma medida dessa magnitude, que depende de diálogo e articulação entre diferentes setores?
Júlio Campos – A prefeita contratou a FIP, uma fundação especializada de São Paulo, para realizar os estudos técnicos iniciais sobre a possível concessão ou terceirização dos serviços de saneamento em Várzea Grande. Esse estudo já foi apresentado e também foram realizadas audiências públicas com a sociedade civil para discutir o tema.
No entanto, o debate acabou sendo atravessado por um problema político mais amplo: o relacionamento entre a Prefeitura e a Câmara Municipal. Na última eleição da Mesa Diretora, a disputa foi bastante apertada, com divisão de forças entre o grupo da situação e o da oposição, liderado pelo vereador Vanderlei.
Esse cenário de forte polarização política tem dificultado a construção de consensos, mesmo em pautas estruturantes como a do saneamento. Ainda assim, há espaço para diálogo e articulação institucional, especialmente com participação de outras lideranças políticas, o que pode ajudar a viabilizar um processo de concessão mais transparente e eficiente.
Também é importante lembrar que houve um início de desgaste ainda no começo da gestão, com divergências internas no Executivo, envolvendo inclusive o vice-prefeito, o que contribuiu para instabilidades administrativas.
Na prática, quem mais sente os efeitos dessa instabilidade é a população, que segue enfrentando problemas recorrentes como falta de água, limpeza urbana deficiente e buracos na malha asfáltica. Trata-se de demandas urgentes, que exigem planejamento, organização e ações imediatas, especialmente neste período de estiagem.
Com diálogo, responsabilidade e gestão técnica, ainda há possibilidade de avançar na construção de uma solução para o saneamento, desde que o processo seja conduzido com seriedade e equilíbrio institucional.
Centro Oeste Popular – O senhor destacou a importância do diálogo para a construção de soluções em Várzea Grande. No entanto, o que se observa hoje é um desgaste na relação entre o Executivo e a Câmara Municipal, com dificuldades de interlocução e entendimento entre as partes. Na sua avaliação, o que tem impedido essa aproximação? Há uma divergência administrativa legítima ou o embate tem sido alimentado por questões de vaidade e disputa de protagonismo político? E, diante desse cenário, quem mais sofre as consequências dessa falta de entendimento?
Júlio Campos – Fica evidente que o principal entrave hoje em é a falta de diálogo entre os grupos políticos, o que acaba sendo agravado por vaidade e disputas de protagonismo, e quem mais sofre com isso é a população.
Esse cenário se forma a partir de uma relação política que já nasce tensionada desde o período eleitoral, quando diferentes lideranças locais, que tinham influência e participação no processo, acabaram se posicionando em campos opostos na disputa pelo comando do Executivo e do Legislativo.
No caso da atual gestão municipal, houve uma eleição marcada por forte mobilização de forças políticas distintas, o que, após o resultado, acabou gerando disputas internas, inclusive no processo de articulação da Câmara Municipal. Em vez de uma construção conjunta, houve movimentos paralelos que não chegaram a um consenso.
Esse ambiente de desconfiança e disputa, que se arrasta desde então, tem dificultado a construção de uma agenda comum entre Prefeitura e Câmara, mantendo um clima de instabilidade política que ainda não foi superado.
Centro Oeste Popular – Mato Grosso tem se destacado nacionalmente pela força do agronegócio e pelos indicadores econômicos, mas ainda enfrenta desafios para consolidar sua imagem perante o restante do país. Na sua avaliação, quais áreas deveriam ser priorizadas para ampliar o reconhecimento do Estado no cenário nacional? E de que forma esse trabalho pode contribuir para fortalecer a identidade mato-grossense e atrair mais investimentos, turismo e oportunidades?
Júlio Campos – Mato Grosso já é um Estado altamente respeitável no cenário nacional e internacional, especialmente como grande produtor de alimentos. Lidera a produção de soja, milho e algodão e, se fosse um país independente, estaria entre os maiores produtores de alimentos do mundo, atrás apenas de grandes potências como Estados Unidos, China e o próprio Brasil.
Apesar desse protagonismo econômico, o principal desafio do Estado ainda é a desigualdade regional e social. Existe uma concentração de riqueza em determinados setores, enquanto uma parcela significativa da população vive em situação de vulnerabilidade, dependendo de programas sociais. Esse contraste revela um problema estrutural importante.
Por outro lado, Mato Grosso já avançou em áreas como a legislação ambiental, sendo um dos estados que mais preservam suas áreas naturais, com mais de 60% do território conservado. Também possui enorme potencial hídrico, com aquíferos importantes, como o Guarani, além de grande riqueza mineral ainda pouco explorada de forma sustentável.
Para ampliar o reconhecimento do Estado, seria fundamental um maior investimento em logística, com destaque para ferrovias e melhoria da navegação fluvial, além de reforço na infraestrutura e na qualidade da educação. Ainda há desafios importantes nesse campo, especialmente em regiões mais carentes.
Também é preciso enfrentar problemas sociais graves, como os altos índices de violência, incluindo o feminicídio, que infelizmente ainda coloca Mato Grosso entre os estados com números preocupantes nessa área.
Apesar disso, o potencial é enorme. Com sua força produtiva, população trabalhadora e riqueza natural, Mato Grosso tem condições de se consolidar, nas próximas décadas, como um dos principais estados do país.
Centro Oeste Popular – Deputado, em meio ao cenário de pré-campanha, o senhor afirmou que não pretende mais disputar cargos em Brasília, como deputado federal ou senador, e destacou que sua prioridade é permanecer em Mato Grosso, atuando na Assembleia Legislativa. Caso seja reeleito em 2026, esse deverá ser seu último mandato eletivo ou o senhor ainda considera a possibilidade de continuar na vida pública e disputar outras funções no futuro?
Júlio Campos – O deputado Max Russi, quando esteve à frente da articulação para a instalação do Podemos, chegou a me convidar para disputar uma vaga de deputado federal pela sigla. No entanto, avalio que meu ciclo em Brasília já se encerrou.
Morei por 24 anos na capital federal, exercendo mandatos parlamentares, e entendo que a função de deputado federal exige uma rotina intensa, especialmente para quem precisa se deslocar semanalmente entre estados e o Congresso. Hoje, já me sinto em outra fase da vida, buscando mais tranquilidade, mesmo mantendo disposição e energia.
Acredito que tenho conseguido realizar um bom trabalho na Assembleia Legislativa e ainda posso contribuir nos próximos anos, caso Deus permita e a população assim decida. Mas não tenho mais interesse em disputar cargos em Brasília, como deputado federal ou senador.
Depois de tantos anos na capital, onde constituí minha vida pessoal e familiar, inclusive com residência no Lago Sul e filhos criados lá, retornei definitivamente para Mato Grosso. Hoje estou totalmente estabelecido em Cuiabá, com minha família, e não tenho intenção de voltar a viver ou atuar politicamente em Brasília.
Acho que já é hora de estimular novas lideranças. Tenho um compromisso moral comigo, com Deus e com a minha família de incentivar a participação da juventude na política.
Precisamos também ampliar a presença das mulheres, que são fundamentais nesse processo, mas ainda enfrentam muitos obstáculos em um estado que, infelizmente, ainda carrega traços de machismo.
Outro ponto importante é incentivar a população negra, cuja representação política ainda é muito pequena, tanto no estado quanto no país. A política precisa refletir melhor a diversidade da sociedade.
Os jovens, em especial, têm se afastado da política partidária, buscando outros caminhos, e isso é preocupante. É necessário criar condições para que eles se interessem novamente pela vida pública e entendam a importância da participação política.
Centro Oeste Popular – Júlio, embora o senhor e o Mauro Mendes integrem o mesmo partido, é perceptível que existe um distanciamento político entre os seus grupos. Na sua avaliação, essa divergência se restringe a diferenças de visão e condução política ou houve episódios específicos que contribuíram para o desgaste da relação? O que, de fato, está na origem desse afastamento?
Júlio Campos – Não considero que exista uma questão pessoal. Sempre houve respeito mútuo e o governador Mauro Mendes sempre me tratou com cordialidade, assim como eu também o respeito. O que existe são divergências políticas.
Quando Mauro deixou o PSB e ingressou no então Democratas, o partido o recebeu de portas abertas. Houve um esforço coletivo para fortalecê-lo politicamente. Inclusive, lideranças abriram espaço na estrutura partidária para acomodar o grupo que chegava. Naquele momento, o objetivo era construir um projeto conjunto.
Nós apoiamos sua candidatura ao Governo do Estado em 2018. O partido esteve ao seu lado durante toda a campanha, oferecendo apoio político, estrutura e condições para que o projeto fosse viabilizado. No entanto, após a eleição, a percepção de muitos companheiros foi de que o governo passou a ser conduzido por um grupo mais restrito, sem a participação de lideranças que contribuíram para sua construção.
Portanto, o que gerou o distanciamento não foi uma questão pessoal, mas uma diferença na forma de conduzir as relações políticas e partidárias ao longo dos anos.



