O preconceito e a falta de informação sobre o HIV continuam sendo obstáculos para o avanço no combate à doença e podem resultar em centenas de milhares de mortes evitáveis nos próximos anos. Uma pesquisa internacional de opinião pública realizada pela iniciativa Tackle HIV estima que cerca de 440 mil mortes poderiam ocorrer nesta década caso o estigma social em torno do vírus não seja enfrentado.
Segundo representantes da iniciativa, o preconceito ainda influencia diretamente o comportamento das pessoas, fazendo com que muitos evitem realizar testes, iniciar tratamentos ou até mesmo conviver com pessoas que vivem com HIV.
Apesar dos avanços científicos registrados nas últimas décadas, a desinformação permanece como uma das principais barreiras para a prevenção. Atualmente, pessoas diagnosticadas e que seguem tratamento adequado podem ter qualidade de vida e, quando atingem carga viral indetectável, não transmitem o vírus por relações sexuais.
No Brasil, dados do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025 apontam que foram registrados 39.216 casos de infecção pelo HIV no país. A região Sudeste concentrou a maior parte das notificações, com 38,4% dos registros.
A pesquisa realizada pela Tackle HIV ouviu 2.006 adultos brasileiros e revelou a permanência de informações equivocadas sobre a transmissão do vírus. Entre os entrevistados, 36% afirmaram acreditar que homens heterossexuais não estão sujeitos ao HIV, enquanto 37% disseram o mesmo sobre mulheres heterossexuais.
Outro dado apontado pelo levantamento mostra que menos da metade dos participantes, 48%, já havia realizado o teste de HIV. Entre aqueles que pensaram em fazer o exame, muitos desistiram por acreditarem não estar em situação de risco.
O estudo também identificou que 19% dos entrevistados ainda acreditam que pessoas vivendo com HIV não podem manter uma vida sexual ativa. Além disso, apenas 29% tinham conhecimento de que pessoas em tratamento eficaz e com carga viral indetectável não transmitem o vírus durante relações sexuais.
Para especialistas e representantes da campanha, ampliar o acesso à informação é essencial para estimular a testagem e garantir que mais pessoas iniciem o tratamento no momento adequado.
A mobilização faz parte dos esforços globais para alcançar as metas estabelecidas pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), que busca eliminar a Aids como ameaça de saúde pública até 2030.
Entre os principais objetivos estão as metas conhecidas como "95-95-95": garantir que 95% das pessoas que vivem com HIV saibam do diagnóstico; que 95% delas estejam em tratamento; e que 95% das pessoas em tratamento tenham a carga viral controlada.
O Brasil já alcançou avanços importantes nesse caminho. Em 2020, o país atingiu a primeira meta, com 95% das pessoas vivendo com HIV conhecendo seu diagnóstico. Em 2024, alcançou a terceira etapa, relacionada à supressão da carga viral entre pessoas em tratamento.
Além do tratamento, novas estratégias de prevenção também estão em discussão. Entre elas está a profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável, método que pode proteger pessoas contra a infecção por até seis meses e que está sendo avaliado para possível inclusão no Sistema Único de Saúde (SUS).
Criada para combater o preconceito e a desinformação, a Tackle HIV reforça que o diagnóstico positivo não representa mais uma sentença de morte. Com os recursos disponíveis atualmente, pessoas vivendo com HIV podem iniciar o tratamento, manter uma rotina saudável e ter qualidade de vida.
A principal barreira, segundo a iniciativa, continua sendo o estigma que impede muitas pessoas de buscar informação, realizar exames e acessar os cuidados necessários.



