A mineração em Mato Grosso está no centro de uma série de investigações da Polícia Federal (PF) que buscam identificar esquemas de exploração ilegal de recursos minerais, movimentação de dinheiro e comercialização de ouro de origem suspeita. Ao longo de 2026, diferentes operações atingiram desde áreas de extração até estruturas responsáveis pelo financiamento e pela negociação dos minérios.
As ações acendem um alerta para o setor mineral no estado. Embora não exista confirmação oficial de uma nova megaoperação geral contra mineradores mato-grossenses, as investigações já realizadas mostram que a fiscalização está alcançando diferentes etapas da cadeia produtiva, inclusive empresas, intermediários e operadores financeiros suspeitos de participação nos esquemas.
Um dos principais focos das autoridades é descobrir como minerais extraídos irregularmente conseguem chegar ao mercado formal, além de identificar quem financia as atividades e quem obtém lucro com a exploração clandestina.
Uma das ações ocorreu em 4 de agosto, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Peso Bruto, voltada à investigação de extração irregular de recursos minerais em Rosário Oeste, a cerca de 128 quilômetros de Cuiabá.
Na ocasião, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados na capital mato-grossense.
Segundo a PF, as apurações apontaram a retirada de mais de 34 mil toneladas de calcário fora dos limites estabelecidos pelos títulos minerários e pelas licenças ambientais.
O prejuízo potencial aos cofres da União foi estimado em mais de R$ 3 milhões. A investigação procura esclarecer quem participou da atividade, quais foram os ganhos obtidos e se outras pessoas também foram beneficiadas.
Em 18 de agosto, a Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério Público Federal realizaram a Operação Solo Sagrado, que teve como alvo uma organização criminosa investigada por extração ilegal de ouro na Terra Indígena Sararé.
A suspeita é de que o grupo mantinha uma estrutura organizada para financiar o garimpo, oferecer suporte logístico e inserir o ouro extraído ilegalmente no mercado formal.
Foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva. Também foram determinadas medidas de afastamento dos sigilos bancário e fiscal, além do sequestro de bens e valores.
Um dos dados que chamaram a atenção dos investigadores foi a movimentação financeira de aproximadamente R$ 20,5 milhões por um dos núcleos investigados entre 2022 e 2025.
Além disso, foram identificados mais de R$ 3,5 milhões em recebimentos por meio de instituições de pagamento e empresas de serviços digitais.
As autoridades buscam agora identificar outros possíveis integrantes da estrutura e rastrear o dinheiro relacionado à exploração mineral.
Dez dias depois, em 28 de agosto, outra investigação da Polícia Federal atingiu uma estrutura suspeita de adquirir, transportar e comercializar ouro de origem ilícita.
Batizada de Operação Arcanjo, a ação cumpriu 22 mandados de busca e apreensão e dois mandados de prisão preventiva em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
De acordo com a investigação, o grupo atuaria em diferentes etapas da cadeia de comercialização do ouro, envolvendo fornecedores, intermediários, operadores financeiros, transportadores e compradores.
As apurações identificaram negociações de aproximadamente 17,3 quilos de ouro e movimentações superiores a R$ 5,2 milhões relacionadas às operações investigadas.
O caso reforça que o combate ao garimpo ilegal não se restringe aos locais de extração. A investigação também procura alcançar quem compra, transporta e comercializa o minério, além de possíveis mecanismos utilizados para ocultar a origem dos recursos.
Em setembro, as ações de fiscalização chegaram aos rios Teles Pires e São Manuel, na região de Apiacás, no norte de Mato Grosso.
Entre os dias 15 e 16, a Polícia Federal, o Ibama e a Funai realizaram diligências contra a exploração mineral ilegal em áreas indígenas e regiões próximas.
Durante a operação, foram inutilizadas 16 balsas escariantes, cinco balsas de mergulho, cinco barcos, equipamentos de bombeamento e aproximadamente 37,7 mil litros de combustível, conforme informações da Polícia Federal.
A dimensão da estrutura encontrada evidencia o impacto da atividade clandestina sobre áreas ambientalmente sensíveis e territórios tradicionais.
A sequência de operações levanta questionamentos sobre os próximos passos das autoridades e o alcance das investigações no setor mineral de Mato Grosso.
Até o momento, não há confirmação oficial de uma nova megaoperação com abrangência geral contra mineradores do estado. Isso, porém, não significa que as apurações estejam encerradas.
A fiscalização pode alcançar diferentes agentes da cadeia mineral, especialmente quando surgem indícios de extração fora das áreas autorizadas, irregularidades ambientais, comercialização de produtos sem comprovação de origem ou movimentações financeiras suspeitas.
Empresas e profissionais que atuam legalmente precisam manter em dia os títulos minerários, as licenças ambientais e a documentação que comprove a origem e a comercialização dos produtos.
Caso sejam identificadas irregularidades, as autoridades podem aprofundar as investigações e solicitar medidas judiciais, conforme as provas reunidas.
Com operações que atingem a extração de calcário, o garimpo de ouro em terras indígenas e a comercialização de minério, Mato Grosso aparece como um dos focos de investigações relevantes sobre crimes relacionados à mineração.
O principal desafio das autoridades é identificar não apenas quem realiza a extração ilegal, mas também quem financia, transporta, compra e lucra com essas atividades.
A possibilidade de novas fases das operações permanece no radar, mas qualquer anúncio de uma futura megaoperação precisa ser confirmado oficialmente.
Enquanto isso, o setor mineral acompanha o avanço das investigações, que podem trazer novos desdobramentos e revelar a dimensão das estruturas envolvidas na exploração irregular dos recursos minerais do estado.



