08 de Junho de 2026

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ENTREVISTA DA SEMANA Segunda-feira, 08 de Junho de 2026, 10:45 - A | A

Segunda-feira, 08 de Junho de 2026, 10h:45 - A | A

“A Câmara Municipal precisa de um líder que governe para o povo e não fique de intrigas pessoais”, diz Flávia Moretti

“O problema do DAE finalmente vai ser solucionado”

Ana Carolina Guerra
Tangará Online
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Em um momento marcado por debates intensos sobre gestão pública, investimentos e relação entre os poderes, a prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, detalhou as principais ações de sua administração e respondeu a questionamentos sobre temas que têm gerado repercussão no município.

Na conversa, abordou desde a realização da ExpoVG e seus impactos econômicos e sociais, até questões estruturais históricas como o abastecimento de água e os investimentos no Departamento de Água e Esgoto (DAE). Também comentou o andamento de obras estratégicas na área da saúde, como a implantação do Hospital e Maternidade de Várzea Grande, além da tramitação de recursos junto à Câmara Municipal.

A relação com o Legislativo, marcada por divergências e episódios de judicialização, também foi tema da entrevista, assim como a atuação política da gestão e os desafios enfrentados por mulheres na liderança de cargos públicos. Ao longo da conversa, a prefeita destacou ainda o planejamento de longo prazo da administração e a expectativa de avanços em áreas consideradas prioritárias para o município.

Centro Oeste Popular – A realização da ExpoVG gerou grande repercussão e dividiu opiniões. Enquanto muitos comemoraram o retorno de um evento que não acontecia há mais de 20 anos em Várzea Grande, críticos argumentaram que os recursos poderiam ter sido destinados a outras áreas consideradas prioritárias. Como a senhora responde a essas críticas e quais resultados concretos a ExpoVG trouxe para a economia, o turismo, a geração de renda e a imagem do município?

Flávia Moretti – Foram quatro dias de evento que, antes de tudo, tiveram como objetivo o resgate da história de Várzea Grande. A proposta foi retomar uma tradição importante do município, que chegou a ser interrompida há cerca de 21 anos após um episódio trágico. A ideia foi justamente devolver à população uma celebração que sempre fez parte da identidade da cidade. Assim como ocorre em todo o Brasil, os municípios comemoram seus aniversários, e não fazia sentido Várzea Grande ficar sem essa celebração. Foi um sonho que conseguimos tirar do papel e que, na minha avaliação, superou todas as expectativas — tanto minhas quanto da própria população. Em relação às críticas, eu entendo que elas acabam vindo, muitas vezes, de quem não participou ou não acompanhou o evento de perto. Quem esteve presente viu uma festa organizada, com espaços bem estruturados, áreas de alimentação, parquinho para crianças e atrações para toda a família. Era possível ver pessoas indo apenas para levar os filhos, outras para se alimentar ou simplesmente aproveitar o ambiente. Do ponto de vista da organização, tivemos um trabalho cuidadoso, especialmente na estrutura do parquinho e na logística das filas de alimentação, o que foi reconhecido por muitos participantes. Além disso, o evento também gerou impacto econômico significativo, com movimentação superior a R$ 33 milhões na economia local, aumento de cerca de 30% na ocupação da rede hoteleira em comparação ao ano anterior e cerca de 110 mil pessoas circulando em quatro dias. Outro ponto importante foi a segurança: não tivemos registros relevantes de ocorrências, apenas um caso pontual de furto de celular, que foi rapidamente resolvido. Não houve brigas, não houve situações graves, o que demonstra o sucesso também nesse aspecto. Além disso, aproximadamente 15 mil pessoas utilizaram o transporte público gratuito disponibilizado durante o evento, o que contribuiu para a mobilidade e o acesso da população. No geral, foi um evento de grande porte, bem-sucedido e que movimentou não apenas Várzea Grande, mas também refletiu positivamente na economia de Cuiabá e de toda a região.

Centro Oeste Popular – Prefeita, a falta de água é um dos problemas mais antigos e recorrentes de Várzea Grande. Muitos moradores convivem com essa realidade há décadas e, quando cheguei à cidade, em 2016, essa já era uma das principais reclamações da população. Com as mudanças que estão sendo implementadas no DAE, a senhora acredita que esse problema será definitivamente solucionado? Qual é o prazo para que os moradores percebam uma melhora efetiva no abastecimento? Ou existe o risco de que essa continue sendo uma pauta presente nos próximos anos?

Flávia Moretti – O Departamento de Água e Esgoto (DAE) precisa, de fato, de investimentos estruturais, e esse é um trabalho que já vem sendo iniciado desde o ano passado. Nós já estamos executando uma série de ações importantes, como a implantação de cinco reservatórios de água, que vão ampliar significativamente a capacidade de armazenamento, somando mais de 10 milhões de litros. Isso vai permitir uma melhor distribuição nos bairros e reduzir a necessidade de revezamento no abastecimento. Já há resultados perceptíveis em algumas regiões, como no bairro São Mateus, onde houve melhora no fornecimento. Também estamos atuando fortemente no combate a vazamentos. Em pouco tempo de gestão, a atual equipe do DAE já realizou intervenções em diversos bairros, com frentes de trabalho voltadas especificamente para correção de perdas e manutenção da rede. É importante lembrar que são 243 bairros, o que exige planejamento e execução gradual, não sendo possível resolver tudo de forma imediata. Além disso, estamos avançando em obras estruturantes de interligação de redes, como no Morro do Urubu e na região do Paiaguás. Inclusive, estamos executando uma rede de água na região da Júlio Campos, onde não havia cobertura adequada, justamente para garantir que essas áreas deixem de sofrer com a falta de abastecimento. Paralelamente a essas intervenções imediatas, estamos trabalhando na solução de longo prazo, que é a concessão privada do sistema. O diagnóstico já foi protocolado no Tribunal de Contas do Estado e, a partir de junho, será aberta a consulta pública do plano de saneamento básico, que inclui audiências públicas e a revisão do planejamento do setor. Depois dessa etapa, o processo segue para a Câmara Municipal, com a renovação do plano de saneamento e, posteriormente, a modelagem da concessão. Trata-se de um contrato estruturado para garantir investimentos contínuos e melhoria definitiva do sistema. A expectativa é que, com todas essas etapas avançando dentro do cronograma, a concessão esteja estruturada e em andamento até o próximo ano, trazendo uma solução mais definitiva para os problemas históricos de abastecimento de água no município.

Centro Oeste Popular – Apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, as mulheres ainda enfrentam desafios para ocupar espaços de liderança na política. Ao assumir a gestão de Várzea Grande, quais barreiras a senhora encontrou e como tem lidado com elas? Além disso, qual mensagem deixaria para mulheres que desejam ingressar na vida pública, mas ainda enxergam esse ambiente como um espaço de difícil acesso?

Flávia Moretti – O maior desafio que eu enfrento na política é, sem dúvida, a superação do machismo ainda muito presente nesse ambiente. Existem pessoas que não aceitam facilmente a liderança de uma mulher, tanto homens quanto, em alguns casos, mulheres que acabam reproduzindo uma cultura machista já enraizada. Esse é um desafio diário: mostrar que uma mulher pode, sim, exercer liderança, governar, gerir a coisa pública com competência, responsabilidade e capacidade de entrega. É isso que tenho buscado demonstrar na prática, com transparência e resultados. Mais do que enfrentar essa barreira, eu também procuro inspirar outras mulheres. Sempre digo que cada uma pode exercer liderança no seu espaço — seja no bairro, em uma associação, na igreja ou em qualquer organização comunitária. Mas a política exige um passo a mais: coragem, resiliência e disposição para enfrentar desafios maiores. E é isso que reforço para as mulheres: é possível ocupar esses espaços, mas é preciso acreditar, ter coragem e persistência para seguir nesse caminho.

Centro Oeste Popular – Recentemente a senhora explicou que os recursos encaminhados à Câmara têm como finalidade viabilizar a implantação do Hospital e Maternidade de Várzea Grande, incluindo o pagamento dos serviços de terraplanagem, orçados em cerca de R$ 5,8 milhões. Com a liberação desse valor e considerando o cronograma firmado junto à Caixa Econômica Federal, em que fase está atualmente o projeto? Quando a população poderá ver o início efetivo das obras das fundações e qual é a previsão para a entrega dessa importante estrutura de saúde para o município?

Flávia Moretti – Esse recurso está claramente previsto na legislação encaminhada à Câmara e é destinado à implantação do hospital e maternidade de Várzea Grande. A aplicação desse valor ocorre na forma de custeio, porque envolve serviços já executados e em execução, como a terraplanagem da área. Essa etapa da obra está praticamente concluída e o pagamento ainda não havia sido efetivado. Com a liberação do recurso, será possível regularizar essa despesa e avançar para a próxima fase do projeto, que é o início das fundações da maternidade. Trata-se de um cronograma já pactuado e assinado junto à Caixa Econômica Federal, o que reforça a necessidade de continuidade da obra dentro dos prazos estabelecidos. Os R$ 5,8 milhões são destinados à área total da maternidade e foram viabilizados por meio de emendas parlamentares, incluindo recursos oriundos do Governo Federal. A medida garante a execução do projeto e a manutenção do andamento da obra, que é considerada estratégica para a rede de saúde do município.

Centro Oeste Popular – Nas últimas semanas, foi divulgado que cerca de R$ 15 milhões destinados à saúde do município permanecem sem liberação devido à tramitação e votações na Câmara Municipal. Caso esse impasse entre o Executivo e o Legislativo continue, qual é o plano da sua gestão para garantir que a população não seja prejudicada com a falta de atendimentos, exames, medicamentos e outros serviços essenciais de saúde?

Flávia Moretti – Bom, primeiro é importante destacar que parte desses recursos já foi liberada, como os R$ 5,8 milhões. Ainda restam aproximadamente R$ 9 milhões na área da saúde, além de novos projetos e emendas que devem ser encaminhados à Câmara, somando cerca de mais R$ 8 milhões. Nós também estamos recebendo novos recursos provenientes de emendas do Governo Federal, do Governo Estadual, de deputados estaduais, federais e senadores. Esse fluxo de recursos tem aumentado agora, especialmente porque estamos nos aproximando do prazo final de envio, que se encerra em 30 de junho deste ano, em função do calendário eleitoral. Por isso, estamos consolidando todas essas informações para encaminhar novos projetos de lei orçamentária, contemplando não só a saúde, mas outras áreas prioritárias do município. Em relação ao chamado “plano B”, ele envolve principalmente duas frentes: a articulação política junto ao Legislativo para garantir a aprovação das matérias necessárias e, ao mesmo tempo, a utilização dos instrumentos legais disponíveis. Existe uma ação em curso no âmbito do Tribunal de Justiça, envolvendo uma discussão de constitucionalidade, que está sob análise da Procuradoria-Geral de Justiça. Após o parecer, o processo retorna ao Tribunal para decisão. O objetivo é assegurar o equilíbrio orçamentário do município e garantir a execução do orçamento de forma eficiente, respeitando a legislação e preservando a capacidade de gestão da Prefeitura.

Centro Oeste Popular – Os embates entre a Prefeitura e a Câmara Municipal têm sido frequentes e, muitas vezes, acabam ganhando mais destaque do que as pautas de interesse da população. Na sua avaliação, por que a relação entre Executivo e Legislativo chegou a esse nível de desgaste? E que tipo de postura ou ambiente de diálogo a senhora considera ideal para conseguir governar e entregar resultados para a cidade?

Flávia Moretti – Não diria que a Câmara de Vereadores é ruim. O que vejo é um problema de condução. Toda instituição depende de liderança, e cabe ao presidente da Casa organizar os trabalhos, construir consensos e garantir que o Legislativo cumpra seu papel de atender aos interesses da população. Na minha avaliação, o atual presidente não tem exercido essa função da forma que deveria. Muitas vezes, decisões acabam sendo pautadas por interesses políticos e pessoais, quando o foco deveria estar nas necessidades da cidade. Eu não governo para enfrentar o presidente da Câmara, nem para beneficiar este ou aquele grupo político. Governo para atender a população. A prova disso é que, quando projetos importantes chegam ao plenário, muitos vereadores compreendem a sua relevância. Em uma votação recente de uma matéria orçamentária, mesmo com ausências na sessão, obtivemos amplo apoio. Isso demonstra que os parlamentares entendem que uma lei orçamentária não beneficia a prefeita, mas permite que a Prefeitura preste serviços à população. Por isso, o problema não está na Câmara como instituição, nem nos vereadores de forma geral. O problema está na forma como a Casa vem sendo conduzida. O que espero é uma relação institucional baseada no diálogo, no respeito entre os poderes e, principalmente, no compromisso com os interesses da cidade.

Centro Oeste Popular – A senhora chegou à Prefeitura defendendo uma postura de diálogo e cooperação institucional, inclusive em pautas que envolvem governos de correntes políticas diferentes. No entanto, a relação com a Câmara tem sido marcada por disputas judiciais e confrontos públicos. Portanto entende que houve falhas de articulação política da Prefeitura nesse processo? Em algum momento acredita que os conflitos poderiam ter sido resolvidos na mesa de negociação, sem a necessidade de intervenção do Judiciário?

Flávia Moretti – No início da gestão, procurei construir uma relação de diálogo e cooperação com a Câmara Municipal e com o presidente da Casa. Houve diversas conversas e atendemos demandas importantes apresentadas pelo Legislativo. Um exemplo foi a cessão da antiga sede do Fórum, uma reivindicação que acolhemos. Além disso, realizamos investimentos para adequar espaços públicos, como a construção do estacionamento do Fórum e da nova sede da Guarda Municipal. Sempre mantivemos uma postura aberta ao diálogo e buscamos construir entendimentos. No entanto, em determinado momento, percebi uma mudança nessa relação. Depois de consolidar sua posição na Câmara, o presidente passou a adotar uma postura mais distante da Prefeitura, dificultando o diálogo institucional que existia anteriormente. A partir daí, muitas portas foram se fechando e a relação se tornou mais difícil. O que sempre defendi foi uma atuação conjunta entre os poderes, com respeito à independência de cada um, mas também com responsabilidade para buscar soluções para a cidade.


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