A escalada das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo capítulo nesta semana. A combinação de duas medidas tarifárias propostas pelo governo norte-americano pode elevar para 37,5% a carga total de taxas sobre produtos brasileiros exportados para o mercado dos EUA, segundo avaliação de órgãos do governo federal.
O percentual resulta de investigações conduzidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). A primeira delas prevê a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de que determinadas práticas adotadas pelo Brasil estariam restringindo ou dificultando o comércio com empresas norte-americanas.
Já uma segunda investigação concluiu que o Brasil está entre os países que não teriam adotado mecanismos considerados suficientes para impedir a entrada de produtos associados ao trabalho forçado em suas cadeias comerciais. Como consequência, foi proposta uma taxa adicional de 12,5%.
Caso as duas medidas sejam implementadas, a sobretaxa total poderá atingir 37,5%, percentual próximo aos cerca de 40% aplicados anteriormente em determinados produtos brasileiros.
O tema dominou a agenda diplomática nessa quarta-feira (03), durante encontro entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, realizado durante reunião da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), na França.
Segundo integrantes da delegação brasileira, Greer sinalizou que Washington permanece aberto ao diálogo, enquanto o governo brasileiro defendeu o aprofundamento das negociações para evitar a adoção das novas barreiras comerciais.
Nos bastidores, a avaliação é de que ainda existe espaço para entendimento entre os dois países dentro do prazo de 30 dias acordado pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante encontro realizado em Washington.
Apesar da manutenção das negociações, o presidente Lula adotou um tom mais duro durante reunião ministerial realizada no Palácio do Planalto. O chefe do Executivo criticou a postura dos Estados Unidos e afirmou que o Brasil não aceitará passivamente medidas consideradas prejudiciais à economia nacional.
“Nós somos grandes, temos muita história e não podemos aceitar o tratamento que os EUA deram ao Brasil esta semana”, declarou.
Lula também anunciou que pretende encaminhar uma nova carta ao presidente Donald Trump para contestar as tarifas e defender os interesses brasileiros.
Durante a reunião, o presidente reforçou a defesa da soberania nacional e do PIX, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central, que passou a ser citado por autoridades norte-americanas como exemplo de prática econômica que estaria sob análise.
O governo brasileiro avalia alternativas para reduzir os impactos das medidas e não descarta ampliar relações comerciais com outros parceiros internacionais caso as negociações com Washington não avancem.
Mesmo diante do aumento da tensão diplomática, integrantes do governo acreditam que a manutenção dos canais de diálogo pode permitir a revisão de parte das tarifas propostas, evitando prejuízos mais severos às exportações brasileiras.



