Uma nova investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos concluiu que o Brasil e outros 59 países falharam em combater e fiscalizar adequadamente o uso de trabalho forçado na produção de mercadorias. Como resultado, o governo americano propôs a aplicação de uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros.
A medida foi anunciada e integra uma ampla ofensiva comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). Apesar das críticas direcionadas à pecuária nacional, a carne bovina brasileira ficou fora da lista de produtos que poderão ser atingidos pela nova taxação.
Além da carne bovina, também foram incluídos entre os itens isentos produtos como café, suco de laranja, petróleo, aviões, terras raras e metais.
O relatório dedica um capítulo específico à pecuária brasileira, apontando supostos problemas relacionados à ocorrência de trabalho forçado em parte da cadeia produtiva. Segundo o documento, essa situação teria contribuído para o crescimento das exportações brasileiras de carne bovina e para a perda de espaço dos produtores americanos, principalmente no mercado chinês.
De acordo com o governo dos Estados Unidos, a participação do Brasil nas importações chinesas de carne bovina congelada saltou de 38% em 2021 para 53% em 2025. No mesmo período, a fatia americana teria recuado de 6% para 2%.
O documento também cita a chamada "lista suja" do trabalho escravo e afirma que existem registros de propriedades ligadas à pecuária incluídas entre empregadores flagrados submetendo trabalhadores a condições análogas à escravidão.
Apesar das acusações, o próprio relatório reconhece a dificuldade de rastrear a origem dos animais devido à chamada "lavagem de gado", prática em que bovinos criados em propriedades com irregularidades são transferidos posteriormente para fazendas que cumprem a legislação.
A investigação ocorre em meio à crescente disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. Um dia antes, o governo americano já havia proposto uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros sob a alegação de que políticas adotadas pelo Brasil prejudicariam empresas norte-americanas.
Caso as duas medidas sejam implementadas de forma cumulativa, como avalia o governo brasileiro, a sobretaxa poderá chegar a 37,5%.
Especialistas do setor, no entanto, contestam as conclusões do relatório americano. O analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, afirma que o avanço da pecuária brasileira está relacionado ao aumento da produtividade, ao investimento em tecnologia e ao melhoramento genético dos rebanhos.
Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que, entre 2018 e 2025, o rebanho bovino nacional cresceu 11,4%, enquanto a área de pastagens foi reduzida em 5,8%, resultando em um aumento de 16,3% na produtividade.
Em 2024, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e se consolidou como o maior produtor mundial de carne bovina. Atualmente, a China permanece como principal destino da carne brasileira, seguida pelos Estados Unidos.
A proposta de tarifa ainda precisa passar por etapas legais e consultas públicas antes de uma decisão definitiva do governo americano. Enquanto isso, o Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mantêm negociações para tentar evitar a adoção das novas barreiras comerciais.



