03 de Agosto de 2026

ENVIE SUA DENÚNCIA PARA REDAÇÃO
logo

GERAL Segunda-feira, 03 de Agosto de 2026, 11:21 - A | A

Segunda-feira, 03 de Agosto de 2026, 11h:21 - A | A

AUMENTO DE 102%

Na contramão do Brasil, Mato Grosso dobra número de adolescentes privados de liberdade em sete anos

Em contrapartida, o Brasil reduziu pela metade o número de jovens em medidas socioeducativas

Ana Carolina Guerra
Tangará Online

Reprodução

WhatsApp Image 2026-07-24 at 16.02.50.jpeg

Enquanto a maioria dos estados brasileiros conseguiu reduzir o número de adolescentes submetidos a medidas socioeducativas com restrição de liberdade nos últimos anos, Mato Grosso seguiu uma trajetória diferente. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 apontam que o estado foi o único do país a registrar aumento nesse tipo de atendimento entre 2018 e 2025, colocando o sistema socioeducativo mato-grossense no centro das discussões sobre segurança pública, prevenção e políticas voltadas à juventude.

De acordo com o levantamento, o número de adolescentes internados, em regime de semiliberdade ou em outras modalidades que envolvem restrição de liberdade, mais que dobrou no período analisado. Em 2018, Mato Grosso tinha 114 adolescentes nessa condição. Em 2025, o número chegou a 231, representando um crescimento de 102,6%.

O avanço também aparece na taxa proporcional. Há sete anos, o estado registrava 22,5 adolescentes internados para cada grupo de 100 mil jovens entre 12 e 20 anos. Em 2025, esse índice alcançou 45,2 adolescentes por 100 mil, mais que o dobro do registrado anteriormente.

O cenário chama atenção principalmente quando comparado ao movimento nacional. No mesmo período, o Brasil reduziu em 50,2% o número de adolescentes privados de liberdade. O total caiu de 24.510 jovens em 2018 para 12.203 em 2025.

A redução nacional acompanha uma tendência observada ao longo da última década, marcada por mudanças na aplicação das medidas socioeducativas, maior incentivo às alternativas em meio aberto e discussões sobre a necessidade de evitar a internação como primeira resposta aos atos infracionais.

Em Mato Grosso, porém, os números apontam para uma realidade diferente. O estado passou a concentrar uma quantidade maior de adolescentes dentro das unidades socioeducativas, levantando questionamentos sobre os motivos que levaram ao crescimento justamente no período em que outros locais registraram queda.

O dado mais recente reforça a mudança de cenário. Entre 2024 e 2025, Mato Grosso registrou aumento de 37,5% no número de adolescentes cumprindo medidas com restrição de liberdade.

No mesmo intervalo, a média brasileira apresentou crescimento de apenas 1,2%, indicando estabilidade na maior parte dos estados.

A diferença mostra que o crescimento em Mato Grosso não ocorreu apenas como uma variação pontual, mas como parte de uma trajetória de aumento que se consolidou nos últimos anos.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no entanto, não aponta uma causa única para esse avanço. O crescimento das internações pode estar relacionado a diferentes fatores, como aumento da participação de adolescentes em atos infracionais considerados graves, mudanças nos critérios adotados pelo sistema de Justiça, maior capacidade de atendimento das unidades socioeducativas ou alterações na aplicação das medidas.

A interpretação dos números exige uma análise mais ampla, considerando aspectos sociais, econômicos e institucionais.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a internação deve ser aplicada apenas em situações específicas e como medida excepcional. O objetivo não é apenas retirar o adolescente do convívio social, mas promover responsabilização pelo ato cometido e oferecer condições para que ele possa retornar à sociedade.

Especialistas destacam que o sistema socioeducativo deve trabalhar com educação, formação profissional, acompanhamento psicológico e fortalecimento dos vínculos familiares, evitando que a medida se transforme apenas em uma forma de punição.

A preocupação é que o aumento das internações, sem uma política estruturada de prevenção, represente apenas uma resposta posterior ao problema, sem enfrentar as causas que levam adolescentes a ingressarem em trajetórias de violência.

Entre os fatores apontados por pesquisadores estão a evasão escolar, falta de oportunidades profissionais, vulnerabilidade social, exposição à violência e aproximação de organizações criminosas.

O crescimento do número de adolescentes internados também reacende a discussão sobre políticas públicas voltadas à juventude.

Pesquisadores da área defendem que ações preventivas são fundamentais para evitar que adolescentes cheguem ao sistema socioeducativo. Entre as medidas consideradas importantes estão a permanência na escola, acesso ao esporte e cultura, programas de capacitação profissional e apoio às famílias.

A avaliação é que o enfrentamento da violência juvenil não depende apenas da atuação policial ou judicial. Segundo especialistas, quando o Estado atua somente após o cometimento do ato infracional, as possibilidades de recuperação e reinserção podem se tornar mais difíceis.

Nesse contexto, as medidas em meio aberto, como prestação de serviços à comunidade e acompanhamento socioeducativo, são apontadas como alternativas importantes para casos em que a privação de liberdade não seja necessária.

O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) prevê que essas medidas sejam utilizadas como forma de responsabilização com acompanhamento, permitindo que o adolescente permaneça inserido na comunidade e continue estudando ou trabalhando.

Para especialistas e integrantes do sistema de Justiça, entender quem são esses adolescentes é uma etapa fundamental para encontrar soluções.

A análise dos dados precisa considerar quais atos infracionais levaram às internações, a faixa etária dos jovens, histórico familiar, escolaridade, condições socioeconômicas e eventual relação com grupos criminosos.

Sem esse diagnóstico, políticas públicas podem ser formuladas sem atingir os principais fatores que contribuem para o ingresso de adolescentes na criminalidade.

O Ministério Público e órgãos ligados à infância e juventude defendem que o fortalecimento da rede de proteção é essencial para reduzir a entrada de novos adolescentes no sistema.
Essa rede envolve não apenas o sistema socioeducativo, mas também escolas, assistência social, saúde e programas comunitários.

Embora os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública não estabeleçam uma relação direta entre o aumento das internações e uma eventual elevação da criminalidade juvenil, o crescimento registrado em Mato Grosso acende um alerta.

Ser o único estado brasileiro onde o número de adolescentes privados de liberdade aumentou desde 2018 coloca o estado diante de um desafio: compreender por que a trajetória local se afastou da tendência nacional e quais medidas podem interromper esse ciclo.

O crescimento de 102,6% em sete anos representa uma pressão maior sobre o sistema socioeducativo e exige respostas que vão além da ampliação de vagas ou do aumento das internações.

O desafio envolve encontrar equilíbrio entre responsabilização e oportunidade de mudança, evitando que adolescentes que passam pelo sistema socioeducativo acabem, no futuro, entrando no sistema prisional adulto.

Enquanto o país reduziu significativamente a quantidade de jovens privados de liberdade, Mato Grosso enfrenta o desafio de entender por que mais adolescentes estão chegando a essa etapa e quais políticas podem evitar que esse caminho continue sendo uma realidade para centenas de jovens no estado.


Comente esta notícia

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Tangará Online (tangaraonline.com.br). É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site Tangará Online (tangaraonline.com.br) poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.


image