09 de Julho de 2026

ENVIE SUA DENÚNCIA PARA REDAÇÃO
logo

ENTREVISTA DA SEMANA Quinta-feira, 09 de Julho de 2026, 08:00 - A | A

Quinta-feira, 09 de Julho de 2026, 08h:00 - A | A

"Quem está morrendo é a mulher que nunca conseguiu pedir ajuda", afirma delegada em combate ao feminicídio em MT

“A política pública precisa andar junto a Lei Maria da Penha”

Ana Carolina Guerra
Tangará Online
[email protected]

À frente de investigações e do atendimento a vítimas de violência doméstica por anos, a delegada Jannira Laranjeira construiu sua carreira no enfrentamento à violência contra a mulher em Mato Grosso. Ex-coordenadora do Plantão de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica e Sexual de Cuiabá, ela se tornou uma das vozes mais atuantes na defesa do fortalecimento da rede de proteção, da prevenção ao feminicídio e da integração entre os órgãos públicos responsáveis pelo acolhimento das vítimas.

Agora, a delegada leva essa experiência para um novo desafio. Pré-candidata a deputada federal pelo MDB, Jannira afirma que pretende transformar a vivência adquirida na segurança pública em propostas para aperfeiçoar a legislação e ampliar as políticas públicas voltadas às mulheres, crianças, idosos e demais grupos em situação de vulnerabilidade.

Nesta entrevista ao Centro Oeste Popular, ela faz um diagnóstico sobre o cenário da violência de gênero em Mato Grosso, aponta a subnotificação como um dos principais obstáculos no combate ao feminicídio, critica a falta de integração entre os órgãos da rede de proteção, defende investimentos em prevenção e acolhimento e explica por que decidiu ingressar na política. Também fala sobre a criação do Movimento Voz, iniciativa voltada ao acolhimento de mulheres vítimas de violência, e comenta sua escolha pelo MDB para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.

 

Centro Oeste Popular – A senhora já coordenou o Plantão de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica e Sexual de Cuiabá e possui ampla experiência no enfrentamento à violência contra a mulher. Diante do recente aumento dos casos de feminicídio em Mato Grosso, como a senhora avalia o cenário atual da violência de gênero no estado? Quais fatores, na sua avaliação, têm contribuído para esse quadro?

 

Jannira Laranjeira – Mais uma vez, estamos repetindo um modelo que já vem sendo adotado pelo poder público. São lançados novos programas, projetos e ferramentas de proteção, como o botão do pânico, a tornozeleira eletrônica para agressores e as delegacias de atendimento 24 horas. São iniciativas importantes, mas a população continua fazendo a mesma pergunta: por que os índices de feminicídio e de violência contra a mulher ainda não diminuem de forma significativa?

Na minha avaliação, isso acontece porque ainda não conseguimos enfrentar o principal desafio, que é a subnotificação. As políticas públicas existentes ainda não conseguem alcançar as mulheres que permanecem invisíveis para o sistema de proteção, aquelas que nunca chegam a registrar um boletim de ocorrência ou pedir ajuda formalmente.

Além disso, a rede de proteção precisa ser fortalecida. As políticas públicas ainda não chegam de forma efetiva aos locais onde a violência acontece, especialmente nos municípios do interior, que muitas vezes permanecem desassistidos e com estrutura insuficiente para acolher essas vítimas.

Esse é um desafio que precisa ser enfrentado de forma conjunta pelo governo e por todos os órgãos que integram a rede de proteção. Somente com uma atuação articulada, preventiva e capaz de identificar precocemente os casos de violência será possível reduzir, de fato, os índices de feminicídio e proteger mais mulheres

 

Centro Oeste Popular – A senhora costuma afirmar que a subnotificação é um dos principais desafios no combate ao feminicídio. Por que tantas mulheres ainda não conseguem acessar a rede de proteção antes de serem vítimas de crimes mais graves? E quais medidas considera essenciais para que saúde, educação, assistência social, escolas e demais instituições atuem de forma integrada na identificação desses casos?

 

Jannira Laranjeira – Na minha avaliação, o principal problema é que ainda não estamos conseguindo enfrentar a subnotificação dos casos de violência contra a mulher. Apesar dos avanços nas políticas públicas, elas ainda não chegam de forma efetiva aos locais onde a violência acontece, especialmente no interior do Estado, que continua desassistido em muitos aspectos. Esse é um desafio que não é apenas do governo, mas de todos os órgãos que compõem a rede de proteção.

Hoje, ainda atuamos de forma muito reativa. Esperamos que a mulher procure uma delegacia, registre um boletim de ocorrência e peça ajuda. Mas sabemos que essa não é a realidade da maioria das vítimas. Precisamos alcançar justamente aquelas mulheres que estão tentando pedir socorro em outros espaços, como nas unidades de saúde, nas escolas, na assistência social, no ambiente de trabalho, nas igrejas e em tantos outros locais por onde elas passam diariamente.

Muitas vezes, essas mulheres dão sinais claros de que estão sofrendo violência, mas acabam sendo acolhidas e, depois, retornam para o mesmo ambiente onde continuam expostas ao agressor. Ainda não temos políticas públicas capazes de entrar nesse contexto familiar e interromper esse ciclo de violência antes que ele resulte em um feminicídio.

Quem, muitas vezes, perde a vida é justamente a mulher que nunca registrou um boletim de ocorrência, que talvez não tenha acesso a uma delegacia, que desconheça seus direitos ou que sequer consiga pedir ajuda. Por isso, considero que a subnotificação é o principal desafio que precisamos enfrentar.

Esse cenário só começará a mudar quando fortalecermos verdadeiramente a rede de proteção. Mais do que reunir os órgãos periodicamente, é preciso estabelecer uma comunicação efetiva entre saúde, educação, assistência social, segurança pública e sistema de Justiça. Precisamos definir protocolos, fluxos de atendimento e mecanismos de compartilhamento de informações que permitam identificar essas mulheres antes que a violência se agrave.

Hoje, costumamos dizer que existe uma rede de proteção, mas, na prática, ela ainda funciona de forma fragmentada. Enquanto continuarmos desenvolvendo políticas voltadas apenas para as mulheres que já conseguiram denunciar seus agressores, continuaremos repetindo o mesmo cenário ano após ano, sem reduzir de forma consistente os índices de violência e feminicídio

 

Centro Oeste Popular – Com todos os números alarmantes, quais são as principais falhas da rede de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica? O que precisa ser feito para que saúde, educação, assistência social, segurança pública e o sistema de Justiça atuem de forma realmente integrada na prevenção dos feminicídios?

 

Jannira Laranjeira – Quando falamos em enfrentamento à violência doméstica, não gosto de limitar esse debate apenas à polícia, à segurança pública ou ao sistema de Justiça. Essas instituições são fundamentais, mas elas atuam, na maioria das vezes, quando a violência já aconteceu. A mulher que registra um boletim de ocorrência, em muitos casos, passa a contar com medidas protetivas e com o acompanhamento da Patrulha Maria da Penha. O grande desafio é alcançar aquelas mulheres que nunca chegam até a delegacia.

Precisamos olhar para a mulher que procura atendimento na unidade de saúde, para a criança que apresenta queda no rendimento escolar porque convive com a violência dentro de casa, para o adolescente que relata essa realidade à equipe psicossocial da escola. Onde está a política pública capaz de identificar esses sinais e intervir antes que a violência se torne ainda mais grave?

Também precisamos discutir a segurança jurídica dos profissionais que fazem esse primeiro acolhimento. Médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos e profissionais da educação precisam ter respaldo para notificar esses casos e encaminhá-los à rede de proteção. Não basta existir legislação; é necessário que ela seja efetiva, com protocolos claros e garantia de proteção para quem atua na linha de frente.

Hoje, muitas mulheres procuram os serviços públicos em busca de benefícios sociais, atendimento médico ou apoio psicológico. Elas chegam machucadas, emocionalmente abaladas e, muitas vezes, relatam a violência que estão sofrendo. São acolhidas, ouvidas, mas acabam retornando para o mesmo ambiente onde continuam expostas ao agressor. É justamente nesse ponto que a rede de proteção precisa ser fortalecida.

Outro aspecto que considero indispensável é o trabalho voltado aos autores da violência. No ano passado, tivemos mais de 19 mil medidas protetivas concedidas. Mas quantos desses homens participaram de grupos reflexivos ou de programas de responsabilização? Essa estrutura existe em todos os municípios, especialmente no interior? Se não estamos trabalhando para mudar o comportamento do agressor, estamos deixando de enfrentar uma parte importante do problema.

É claro que, a longo prazo, precisamos investir em educação, conscientização e mudança cultural, levando esse debate para as escolas e formando novas gerações com uma cultura de respeito. Mas, neste momento, também precisamos de políticas públicas capazes de identificar a mulher que já está sendo vítima de violência, muitas vezes adoecida física e emocionalmente, antes que ela se torne mais um caso de feminicídio.

 

Centro Oeste Popular – Apesar dos avanços na criação de mecanismos de proteção, ainda há municípios de Mato Grosso onde ferramentas como o botão do pânico não estão disponíveis ou funcionam de forma limitada. Diante disso tudo, quais são os principais entraves para ampliar esses recursos e garantir uma resposta rápida e eficaz às mulheres em situação de risco?

Jannira Laranjeira – Recentemente, fui questionada por uma assistente social sobre o motivo de o botão do pânico não funcionar em Santo Antônio de Leverger, um município tão próximo de Cuiabá. Essa é uma dúvida legítima e que revela um problema estrutural.

Quem atua diariamente na delegacia sabe que o funcionamento desse mecanismo depende de uma estrutura específica. O botão do pânico está vinculado às centrais que atendem as ocorrências do 190, responsáveis por demandas como tráfico de drogas, roubos, furtos, acidentes e diversas outras situações de emergência. Em muitos municípios, essa estrutura ainda não existe ou não é suficiente para garantir um atendimento ágil e especializado às mulheres em situação de violência.

Isso demonstra que o enfrentamento à violência doméstica ainda não recebe a prioridade que deveria. Enquanto não houver investimentos, estrutura adequada e direcionamento específico para o acolhimento dessas ocorrências, continuaremos apenas reagindo aos casos, em vez de preveni-los. Continuaremos, como costumo dizer, enxugando gelo

 

Centro Oeste Popular – Ao longo da sua carreira, a senhora atuou em diferentes delegacias especializadas e, nos últimos anos, esteve diretamente à frente do enfrentamento à violência doméstica e ao feminicídio. Conviver diariamente com essas histórias certamente traz desafios pessoais e profissionais. O que a motiva a continuar nessa missão? E por que decidiu levar essa experiência para a política partidária? A senhora acredita que poderá contribuir de forma mais efetiva na formulação e implementação de políticas públicas?

 

Jannira Laranjeira – Como delegada, convivo diariamente com histórias de dor, sofrimento e famílias destruídas pela violência. Vejo de perto o impacto que esses crimes provocam na vida das mulheres, dos filhos e de toda a estrutura familiar. Ao mesmo tempo, também percebo que ainda existe um silenciamento institucional que dificulta avanços. Muitas vezes, quando se tenta fazer algo além do que já existe, é preciso enfrentar inúmeras barreiras.

Foi essa realidade que me levou a refletir sobre a necessidade de ampliar minha atuação. Com a experiência que acumulei ao longo da carreira, compreendi que algumas transformações só serão possíveis por meio da formulação de políticas públicas e do fortalecimento da legislação.

Precisamos de normas que garantam, na prática, a atuação integrada da rede de proteção. Não basta existir uma lei determinando a notificação dos casos de violência pelas unidades de saúde; é preciso oferecer segurança e respaldo aos profissionais para que esse trabalho seja efetivamente realizado. Da mesma forma, a educação precisa ter protocolos claros, que saiam do papel e contribuam para identificar e enfrentar a violência desde os primeiros sinais.

Acredito que, quando assumimos o compromisso de transformar a realidade ao nosso redor, também precisamos ter clareza sobre onde podemos gerar maior impacto. Hoje, tenho essa convicção. Entendo que chegou o momento de ampliar minha contribuição, levando toda a experiência adquirida ao longo da minha trajetória para um espaço onde seja possível fortalecer políticas públicas, aperfeiçoar a legislação e ampliar a proteção às mulheres e às famílias.

É por essa razão, por toda a experiência que vivi e pelo profundo compromisso com a justiça e a defesa da vida, que decidi colocar meu nome à disposição para esse novo desafio

 

Centro Oeste Popular- O Movimento Voz foi lançado em novembro de 2025, durante a campanha dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres e Meninas. Como nasceu essa iniciativa? O que ela representa na sua trajetória e de que forma contribui para ampliar o debate e as ações de enfrentamento à violência contra a mulher em Mato Grosso?

 

Jannira Laranjeira – O Movimento Voz nasceu da minha experiência profissional e, principalmente, da escuta das mulheres que acolhemos ao longo dos anos. Ele surgiu da compreensão de que era preciso fazer mais, contribuir de forma ainda mais efetiva no enfrentamento à violência contra a mulher.

O projeto é formado por uma rede de mulheres voluntárias que decidiram doar seu tempo, conhecimento e dedicação para acolher outras mulheres em situação de vulnerabilidade. Hoje contamos com uma página de atendimento, um protocolo de acolhimento e um questionário que permite identificar a necessidade de quem procura ajuda. A partir disso, conseguimos oferecer orientação individualizada, encaminhamentos e, em muitos casos, assistência jurídica.

Ainda é um trabalho pequeno diante da dimensão do problema, mas já estamos alcançando um número significativo de mulheres, além de desenvolver ações preventivas em escolas, com adolescentes e jovens. A prevenção é um dos pilares do Movimento Voz, porque acreditamos que a informação e o diálogo são fundamentais para romper o ciclo da violência.

O movimento também nasceu da urgência de mobilizar toda a sociedade. O enfrentamento à violência doméstica não pode ser uma responsabilidade exclusiva das forças de segurança ou do sistema de Justiça. É preciso envolver os parceiros, as famílias, as igrejas, as associações de bairro e toda a comunidade, para que essa rede de proteção seja realmente efetiva.

É justamente esse propósito que tem despertado o interesse de cada vez mais pessoas. Muitas assistentes sociais, lideranças comunitárias e representantes de igrejas nos procuram dizendo que querem contribuir, abrir espaço para palestras e participar como voluntárias. O Movimento Voz cresce a partir desse engajamento coletivo, com o objetivo de dar voz às mulheres e romper o silêncio que, por tanto tempo, fez com que muitas delas sofressem e adoecessem sozinhas

 

Centro Oeste Popular – A senhora anunciou sua filiação ao MDB para disputar as próximas eleições. Como foi o processo de escolha do partido? Quais fatores pesaram nessa decisão e de que forma ocorreu o diálogo com as lideranças da legenda, especialmente com a deputada estadual Janaina Riva, que também tem uma atuação voltada à defesa dos direitos das mulheres e ao enfrentamento da violência de gênero?

 

Jannira Laranjeira – A escolha pelo MDB partiu, antes de tudo, da compreensão de que o partido é um instrumento indispensável para quem deseja disputar um cargo eletivo. No Brasil, para concorrer a uma eleição é necessário estar filiado a uma legenda, então esse foi o ponto de partida.

Naturalmente, a identidade do partido e de suas lideranças também teve um peso importante na minha decisão. A deputada Janaina Riva é uma referência para mim. É uma mulher que admiro pela sua atuação e pelo compromisso com pautas que também fazem parte da minha trajetória, como a defesa dos servidores públicos, das mulheres, das crianças, das pessoas idosas e de outros grupos em situação de vulnerabilidade.

Esse alinhamento de princípios e de bandeiras foi determinante para a minha escolha. No MDB, encontrei um espaço onde me senti acolhida e onde acredito que poderei exercer minha voz e representar essas causas. Foi a legenda que abriu as portas para que eu colocasse meu nome como pré-candidata à Câmara dos Deputados, e esse acolhimento fez toda a diferença. Também fui muito bem recebida pela presidente estadual do partido, deputada Janaina Riva, o que reforçou minha convicção de que fiz a escolha certa para iniciar essa caminhada política

 
 

Comente esta notícia

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Tangará Online (tangaraonline.com.br). É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site Tangará Online (tangaraonline.com.br) poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.


image