O deputado estadual Lúdio Cabral (PT) chega à disputa pela reeleição após ter protagonizado uma das principais disputas eleitorais de Cuiabá em 2024. Candidato à Prefeitura, ele chegou ao segundo turno e terminou a eleição com quase 150 mil votos. Agora, o parlamentar afirma que o resultado aumentou sua responsabilidade com a população e usa a atuação na área da saúde para sustentar que manteve o foco nos problemas identificados durante a campanha, citando recursos destinados às policlínicas do Pedra 90, Coxipó e Planalto.
Na entrevista, Lúdio também faz duras críticas à administração do prefeito Abilio Brunini, questiona a condução de obras e investimentos na saúde e rebate o discurso de que o PT teria pouca força eleitoral em Mato Grosso. O deputado avalia o desempenho do partido nas últimas eleições, destaca sua própria votação e a de Rosa Neide e aposta em uma chapa mais competitiva para ampliar a representação da esquerda na Câmara dos Deputados em 2026.
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Outro tema abordado é a negociação envolvendo a Oi e o pagamento de R$ 308 milhões pelo Estado. Lúdio reconhece que, na avaliação dele, a Assembleia Legislativa não cumpriu todo o papel de fiscalização que poderia ter exercido e relata a apresentação de requerimentos, convocações e uma tentativa de instalação de CPI. O parlamentar também questiona a condução do acordo e levanta dúvidas sobre o caminho percorrido pelos recursos após o pagamento.
COPopular- Deputado, depois da disputa pela Prefeitura de Cuiabá, em que o senhor chegou ao segundo turno, o que mudou na sua atuação e na sua visão política até este momento em que busca a reeleição para a Assembleia? E, olhando para a gestão de Abilio Brunini, como o senhor avalia o desempenho da Prefeitura de Cuiabá nesse pouco mais de um ano de mandato?
Lúdio Cabral- Bom, primeiro, o resultado da eleição em Cuiabá foi muito positivo para mim. Eu saí muito feliz da eleição. No começo da campanha, ninguém acreditava na possibilidade de nós sequer disputarmos a eleição. Eu consegui ser candidato, fui para o segundo turno e, na segunda etapa, nós quase ganhamos a eleição mais uma vez. Então, esse resultado foi muito, mas muito positivo.
Isso aumenta o tamanho da minha responsabilidade com a população de Cuiabá e com a população de todo o Estado, porque a campanha de Cuiabá irradia para o Estado todo, especialmente no segundo turno. Aumenta também a minha responsabilidade como deputado de trabalhar pela população, e eu me esforcei para isso imediatamente após as eleições.
Por exemplo, já fui buscar fazer com que as emendas parlamentares que eu tinha destinado à saúde de Cuiabá fossem pagas pelo Governo do Estado, porque nós tínhamos identificado muitos problemas na saúde. A saúde era o principal problema da cidade. Na época, por exemplo, três policlínicas enfrentavam problemas: duas estavam literalmente fechadas e uma estava caindo aos pedaços.
Com a responsabilidade trazida pela campanha, imediatamente fui buscar recursos para a reforma e ampliação da Policlínica do Pedra 90, com R$ 2 milhões. Depois, foram destinados R$ 4 milhões para reformar, ampliar e reabrir a Policlínica do Coxipó, que é uma unidade importantíssima para Cuiabá. E, neste ano, foram destinados mais R$ 1,5 milhão para a Policlínica do Planalto. Esse é um exemplo do que a responsabilidade de disputar uma eleição traz para você: você disputa a Prefeitura, identifica os problemas, dialoga com a população e, no mandato de deputado, tem o dever de, com as ferramentas que possui, trabalhar pela população de Cuiabá, que é a minha cidade, e pela população do Estado como um todo.
COPopular- Deputado, setores da direita costumam afirmar que a esquerda, especialmente o PT, tem dificuldade para crescer eleitoralmente em Mato Grosso. Considerando sua votação na disputa pela Prefeitura de Cuiabá e a presença de nomes como Valdir Barranco e Rosa Neide em posições de destaque, como o senhor avalia hoje a força do PT e da esquerda no Estado? O partido tem espaço para ampliar sua presença política e eleitoral para além dessas lideranças?
Lúdio Cabral- A grande verdade é que a extrema direita, e o Abílio em especial, ainda não se deu conta de que é prefeito da capital do Estado desde que passou a eleição. Ele continua sendo a mesma personagem que foi como vereador e como deputado federal, buscando apenas polêmica para tirar o foco da incompetência dele como prefeito da cidade.
Ele tem uma fixação pelo PT, pelo presidente Lula e pela esquerda. Em todo evento que ele participa, tenho notícia de que ele ataca o PT e acaba sendo indelicado com o ambiente onde está, porque, às vezes, é um espaço em que ele deveria se posicionar como prefeito da cidade, e não como o vereador ou o deputado “tiktoker”, que só sabe atacar.
Mas isso é para esconder a incompetência na gestão. Um exemplo disso é justamente aquilo que citei sobre a minha responsabilidade como deputado, que foi destinar recursos para a saúde de Cuiabá. Os R$ 2 milhões para a reforma e ampliação da Policlínica do Pedra 90 foram depositados na conta da Prefeitura de Cuiabá no dia 25 de abril de 2025.
Nós já estamos em agosto de 2026 e nenhum centavo foi utilizado ainda para reformar e ampliar a Policlínica do Pedra 90. A unidade continua caindo aos pedaços e, daqui a pouco, pode desabar sobre os profissionais da saúde e os pacientes que estão lá, porque o prefeito não tem competência e não demonstrou competência para utilizar esses recursos.
Os R$ 4 milhões destinados à Policlínica do Coxipó foram depositados na primeira semana de maio de 2026. Não há nenhum movimento da Prefeitura. Eu espero que não demorem o tempo que estão demorando com a Policlínica do Pedra 90. São R$ 4 milhões na conta da Prefeitura para reabrir a Policlínica do Coxipó e, até agora, não fizeram nada.
A Policlínica precisa ter pronto atendimento 24 horas, retomar os ambulatórios de especialidades, o centro de reabilitação, o laboratório para realização de exames, exames de imagem, para voltar a ser o que era no passado a Policlínica do Coxipó.
Agora, para a Policlínica do Planalto, eu destinei mais R$ 1,5 milhão. Nesse caso, o Estado ainda não pagou, porque o recurso é do orçamento deste ano. São demonstrações de ações que nós fizemos por Cuiabá, mas a incompetência do prefeito não permitiu que essas ações se materializassem.
Sobre o desempenho eleitoral, é importante lembrar que, na eleição de 2022, a Rosa Neide foi a deputada federal mais votada de Mato Grosso pelo PT. Ela teve 123 mil votos no Estado, enquanto o segundo colocado teve menos de 100 mil votos.
Eu fui o quinto deputado mais votado no Estado e fui, por duas vezes, o deputado estadual mais votado em Cuiabá, em 2018 e em 2022. Isso é sinal de que nós temos base e temos voto, resultado do nosso trabalho.
A própria eleição para a Prefeitura é um exemplo disso. Eu fiz 90 mil votos no primeiro turno e quase 150 mil votos no segundo turno. Nós quase ganhamos a eleição. Esse resultado foi uma vitória, porque o desespero do lado de lá, da extrema direita, era acreditar que um segundo turno contra o Lúdio, contra o PT, seria um passeio de 80% a 20%. Eles sofreram e quase perderam a eleição aqui em Cuiabá.
Quase metade da população de Cuiabá votou em Lúdio para prefeito em 2024. Esse é o resultado eleitoral. Agora, todos nós vamos disputar a eleição de 2026, e a população do Estado vai demonstrar qual é a nossa responsabilidade. Todos nós, tanto aqueles que são do campo popular e democrático quanto a extrema direita.
COPopular- Deputado, o senhor citou o desempenho da Rosa Neide nas eleições de 2022. Na avaliação do senhor, o que mudou desde aquela eleição e quais erros ou fatores foram corrigidos para evitar que o mesmo cenário se repita em 2026, especialmente em relação à eleição?
Lúdio Cabral- O erro de 2022 foi na montagem da chapa. Mesmo a Rosa tendo tido uma votação expressiva, na soma dos votos da chapa faltaram votos para que ela alcançasse o quociente eleitoral. Então, neste ano, nós tivemos esse aprendizado do que aconteceu em 2022.
A chapa de deputados e deputadas federais hoje é muito, mas muito qualificada. Temos cinco candidaturas do PT: a Rosa Neide; a professora Leliane, de Várzea Grande, vice-presidente licenciada do Sintep; o meu irmão, James Cabral, que é do PT de Cáceres, agrônomo e ligado à agricultura familiar; Altir Peruzzo, que foi prefeito de Juína e superintendente do Ministério da Saúde; e Léo Rondon, que é jovem, negro, foi candidato a vereador em Cuiabá e hoje é quem mais faz oposição ao Abílio, porque falta uma oposição permanente ao prefeito na Câmara de Vereadores.
Mesmo sem exercer o mandato, o Léo tem feito essa oposição. O PCdoB vem com duas candidaturas: Noel, que é dirigente sindical, e Graciele, que foi vereadora pelo PT em Sinop. São candidaturas também muito qualificadas.
No PV, temos Antero Paes de Barros, que foi senador e deputado federal constituinte, também muito qualificado, e Dona Nelma, que foi candidata a deputada federal na eleição passada, quando fez 40 mil votos. Agora, ela está no PV, junto com o Zé Carlos do Pátio, de Rondonópolis.
Então, a nossa leitura é que nós disputaremos duas vagas para a Câmara dos Deputados com essa chapa de deputados e deputadas federais.
COPopular- Deputado, a operação da Polícia Federal que atingiu integrantes do atual governo reacendeu questionamentos sobre possíveis falhas na fiscalização de irregularidades envolvendo o acordo da Oi. Antes da atuação da Polícia Federal, já havia denúncias e questionamentos apresentados na Assembleia Legislativa, no Tribunal de Contas e no Ministério Público. Na sua avaliação, houve falha dos órgãos locais de fiscalização e controle? E, caso tenha havido, em que ponto o sistema de fiscalização de Mato Grosso falhou para que o caso avançasse até a esfera federal?
Lúdio Cabral- Assim, a Assembleia Legislativa, como instituição, não cumpriu todo o papel que poderia cumprir. Nós fizemos vários requerimentos, com pedidos de documentos e informações, além de convocações de procuradores e do procurador-geral do Estado. Também propusemos uma CPI, mas a comissão dependia de oito assinaturas e alcançamos apenas seis para investigar esse escândalo da Oi.
É uma engenharia que, como você disse, reproduz mecanismos semelhantes aos utilizados em crimes no mercado financeiro. Envolve a criação de fundos de investimento, os chamados fundos de direitos creditórios, em que um fundo repassa recursos para outro, que repassa para outro, e assim sucessivamente, distribuindo o dinheiro em cascata e dificultando a identificação do caminho percorrido pelos recursos.
Os depoimentos que colhemos na Assembleia, inclusive de procuradores, demonstraram claramente o prejuízo que o Estado teve com aquela negociação. Uma questão que era de natureza tributária foi tratada como uma questão administrativa. Também chama atenção a rapidez com que a negociação aconteceu: o pedido entrou em uma comissão da Procuradoria-Geral do Estado no final de dezembro e, em abril, o pagamento já estava sendo realizado.
Não foi feita uma perícia de natureza contábil para identificar qual era, de fato, o valor que deveria ser pago. Do ponto de vista jurídico e judicial, o Estado e a Procuradoria-Geral do Estado, que é sempre rigorosa, tinham argumentos suficientes para contestar aquela negociação e impedir que o Estado pagasse qualquer valor à Oi.
A Oi havia perdido prazo nos processos judiciais para ingressar com a ação rescisória. Ela entrou fora do prazo, e a Procuradoria não questionou isso. E os procuradores, inclusive o procurador-geral, disseram na Assembleia que não esquecerei o termo utilizado por eles: a “vantajosidade” para o Estado em fazer aquele acordo para pagar os R$ 308 milhões.
Segundo eles, se o acordo não tivesse sido feito, uma decisão judicial obrigaria o Estado a pagar mais de R$ 500 milhões. Mas como é possível prever o resultado de uma ação judicial sem cumprir o papel de defender o erário e o interesse público?
E depois, para onde esse dinheiro foi? É injustificável esse recurso circular por fundos de investimento, muitos administrados pela equipe ligada a Vorcaro e ao Banco Master, com nomes de familiares do ex-governador, de familiares do secretário-chefe da Casa Civil e de pessoas do círculo mais próximo do então governador do Estado.
É lamentável. Inclusive, digo isso com tristeza. Trata-se de uma engenharia complexa, mas que, na minha avaliação, demonstra claramente que houve desvio de recurso público para interesse privado. O Estado acabou sendo transformado em um espaço para negócios privados.



