A disputa pelo Governo de Mato Grosso começou a ganhar contornos mais acirrados nos primeiros debates entre os candidatos. Em vez de se concentrarem apenas em propostas e planos para o Estado, os encontros foram marcados por críticas à atual gestão, troca de acusações e referências a investigações e denúncias envolvendo nomes que participam da corrida eleitoral.
Para analisar o início da disputa e os possíveis reflexos desse cenário na campanha, a cientista política Christiany Fonseca. Ela avalia que os primeiros debates tiveram pouco espaço para a discussão programática e foram dominados pelo enfrentamento entre os candidatos.
Clique aqui para participar do nosso grupo COPOPULAR
Na entrevista, Christiany também comenta a posição de Natassia, que disputa sua primeira eleição, a estratégia de Wellington Fagundes e os ataques direcionados ao governador Otaviano Pivetta, candidato à reeleição. A cientista política ainda analisa como o desgaste envolvendo o ex-governador Mauro Mendes e as investigações da Polícia Federal podem repercutir na campanha, além de apontar que denúncias e questões relacionadas ao histórico dos candidatos devem continuar presentes ao longo da disputa.
COPopular- Qual é a sua avaliação sobre o primeiro debate entre os candidatos ao governo de Mato Grosso, considerando que participaram apenas aqueles com representatividade no Congresso e que a ausência de outros candidatos também gerou questionamentos após o encontro?
Christiany Fonseca- Então, eu diria que foi um debate-piloto inicialmente, porque acho que agora as assessorias, já percebendo como foi a primeira experiência e o termômetro do debate, vão saber como fazer a melhor condução para os próximos.
Apesar disso, hoje nós já tivemos um segundo debate, que foi na Aprosoja, e ele seguiu o mesmo encaminhamento do primeiro.
Foi um debate tensionado, acabou sendo pouco programático e ficou muito mais no enfrentamento entre os candidatos. Então, você tem a figura do Pivetta, que é o atual governador e busca a reeleição. Naturalmente, por estar nesse posto, tanto Wellington Fagundes quanto Natasha trouxeram as fragilidades da gestão.
No entanto, a disputa acabou ficando nesse enfrentamento entre eles, inclusive com denúncias envolvendo a vida de cada um. A Natasha acabou ficando mais isenta desse processo porque, no caso dela, é alguém que hoje é uma outsider no processo político e está disputando a primeira eleição.
Então, ela vem de uma maneira mais amena nesse primeiro momento, tentando pautar mais as questões relacionadas às propostas.
E eu digo que, para os dois que já estão no ambiente político, é natural que não apenas propostas sejam pautadas, mas também possíveis questionamentos e enfrentamentos relacionados aos mandatos de ambos.
COPopular- Nos bastidores, houve comentários de que Natassia e Wellington Fagundes teriam atuado de forma alinhada para concentrar críticas e ataques contra o governador Otaviano Pivetta, que busca a reeleição. Você percebeu esse movimento durante o debate?
Christiany Fonseca- Então, eu tenho certa discordância com isso. O Otaviano Pivetta é o atual governador do Estado.
Eles estão disputando o governo do Estado. Se estão colocando seus nomes à disposição, é porque entendem que o atual governo já não atende às demandas e que é preciso buscar uma renovação.
Enfim, nesse sentido, não é necessariamente que os dois estejam se unindo. Eles estão justamente se colocando contra aquele que já tem o mandato. Então, se ele é quem está hoje como governador do Estado, é sobre esse governo que acabam recaindo os maiores tensionamentos.
Mas não necessariamente existe uma união entre os dois. Eu acho que essa é a questão. Ele é o governador.
Se eles colocam seus nomes à disposição para também serem governadores, precisam justamente apontar as fragilidades da atual gestão, pedir renovação e defender que seus nomes sejam escolhidos.
COPopular- Considerando que o debate foi marcado por denúncias, investigações e referências a operações da Polícia Federal, a senhora acredita que a campanha ao governo de Mato Grosso será pautada principalmente pelo histórico dos candidatos e pelas acusações envolvendo corrupção, ou os debates devem avançar para propostas e projetos para o Estado?
Christiany Fonseca- Em tese, todos os candidatos teriam as melhores propostas, né? Eu olhei, por alto, os três programas de governo: um com 28 páginas, outro com 57. Mas, na essência, ambos têm propostas que são interessantes para a população de modo geral.
Agora, o que os diferencia para a população? É justamente aquilo que a população mais recrimina hoje, que é o quê? A corrupção.
Tanto que muitos políticos surgiram com esse discurso anticorrupção. Então, por isso, eu acho que o molde, a toada que essa campanha vai dar, será de ataques.
E isso já começou. Inclusive, eu me lembro que todo mundo estava preocupado com quem Max Russi iria fechar: se seria com Pivetta ou com Wellington. E aí tivemos aquela operação da Polícia Federal aqui em Mato Grosso, que atingiu outros três estados, relacionada ao caso da ONU. Parece que aquilo foi como um start da campanha eleitoral, né?
E, dali, acho que já tivemos uma ideia do tom que esse processo vai ter ao longo da campanha. Até porque percebemos, todos os dias, desde o início da campanha e até mesmo na pré-campanha, matérias envolvendo ambos os candidatos e questões relacionadas à vida pregressa, aos períodos em que ocuparam outros mandatos e, inclusive, pedidos de impugnação de candidaturas relacionados à vida pregressa de candidatos enquanto estiveram em outros mandatos.
Então, assim, é natural que essas denúncias façam parte de todo o decorrer da campanha.
COPopular- Considerando a operação da Polícia Federal e o fato de Mauro Mendes apoiar a candidatura de Otaviano Pivetta, até que ponto o desgaste político envolvendo o ex-governador pode influenciar a imagem de Pivetta e impactar sua campanha pela reeleição?
Christiany Fonseca- Então, eu vejo assim: isso vai prejudicar. Eu acho que já está prejudicando desde o momento em que, inclusive, foi preciso trocar o vice-governador.
Nós vimos, inclusive, o Mauro Mendes dando uma entrevista esta semana, demonstrando ainda a sua insatisfação e dizendo que foi um equívoco a substituição de Fábio Garcia por Gisela Simona. Então, ali você já percebe que realmente há desgastes e prejuízos.
A própria troca de vice, sem que houvesse aquela tranquilidade dentro do grupo, sem que isso acontecesse de maneira consensual, acho que já traz certo ruído para a campanha.
Tirando isso, você tinha o Mauro Mendes antes, que avançava com 83% de aprovação quando saiu do mandato. No entanto, quando vem a operação da OI, essa operação foi publicizada nacionalmente.
Então, aquilo que ficava só em algumas bolhas políticas aqui no Estado passou a chegar à casa de todos os mato-grossenses. Essa é uma informação que hoje todos conhecem. Então, o ex-governador Mauro Mendes vai carregar um desgaste.
Consequentemente, por ele ter saído da máquina, ou seja, por ter deixado de ser governador, ele já perde essa estrutura naturalmente. E agora, com essa investigação, ele também se desidrata.
Nós tivemos uma primeira pesquisa eleitoral pós-operação da OI. E ali a gente percebe que ele já deu uma desidratada: perdeu dois pontos, enquanto Janaina ganhou um. E o Pedro Taques, por exemplo, que foi quem denunciou, praticamente dobrou. Ele saiu de 6 pontos percentuais para 11 pontos percentuais.
Então, isso já demonstra que há reflexos dessa situação em relação ao Otaviano Pivetta. Inclusive, nessa mesma semana, saiu também uma notícia relacionando questões patrimoniais do Pivetta que poderiam ter sido adquiridas com recursos da OI.
Então, eu vejo que a OI vai ser um dos assuntos que vão perpassar as eleições, tanto para o governo quanto para o Senado.



