O vereador de Várzea Grande, Caio Cordeiro, faz uma avaliação crítica do atual cenário político do município e comenta temas que têm gerado debates dentro e fora da Câmara Municipal. Em entrevista o parlamentar falou sobre a decisão do União Brasil de apoiar Otaviano Pivetta na disputa pelo Governo de Mato Grosso, deixando Jayme Campos fora da corrida pelo Palácio Paiaguás, além de analisar o desgaste político da cidade e a perda de espaço de grupos tradicionais.
Durante a conversa, Caio também comentou a polêmica envolvendo o selo de transparência divulgado pela presidência da Câmara, questionou a divulgação de informações públicas e defendeu que o Legislativo amplie o acesso da população aos dados administrativos.
O vereador ainda abordou sua atuação em relação ao transporte coletivo de Várzea Grande, onde defende medidas como o passe livre e a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o serviço. Segundo ele, o setor precisa ser afastado de influências políticas e passar por mudanças estruturais para atender melhor os usuários.
Na entrevista, Caio também falou sobre a relação entre Executivo e Legislativo ao longo da história política do município, criticou o que classifica como influência excessiva de grupos tradicionais e afirmou que a população passou a acompanhar mais de perto a atuação dos representantes públicos.
Outro ponto abordado foi a restrição ao atendimento em seu gabinete após uma portaria da presidência da Câmara. O vereador afirma que a medida dificultou o contato direto com os moradores e diz que passou a buscar alternativas para continuar recebendo demandas da população fora do espaço oficial.
Confira a entrevista completa:
COPopular- A decisão do União Brasil de apoiar Otaviano Pivetta encerrou a possibilidade de Jayme Campos disputar o Governo de Mato Grosso. Como o senhor recebeu esse desfecho e qual análise faz desse novo cenário político para 2026?
Caio Cordeiro- Me surpreende porque estamos falando de uma pessoa que construiu sua história dentro do partido, desde o antigo PFL, como foi bem pontuado, há muitos anos. Ele fazia parte dos chamados caciques da legenda, de uma época em que o partido ainda utilizava o número 25. E hoje, dentro do próprio partido, passar por uma rejeição como essa chama atenção.
Quando você observa o resultado da votação, com 19 votos contra 30, percebe que a perda de força política não está apenas fora da legenda, mas também dentro do próprio partido. O resultado mostra que talvez já não exista mais, internamente, a mesma visão e o mesmo peso político que Jayme Campos teve durante muitos anos dentro da sigla.
COPopular- Vereador, o presidente da Câmara anunciou recentemente a conquista de um selo de transparência e pediu que esse reconhecimento fosse divulgado. O senhor pode explicar que premiação foi essa, quais critérios foram avaliados e o que esse resultado representa para o Legislativo municipal?
Caio Cordeiro- Inclusive, eu solicitei a ele que encaminhasse o processo para que pudesse analisar melhor a situação. O que aconteceu, na verdade, foi uma questão relacionada à Justiça. Ele afirmou que houve um reconhecimento da transparência da Câmara, mas é importante lembrar que esse resultado veio após uma ação judicial justamente questionando a ausência de transparência no Legislativo.
Hoje, eu convido qualquer cidadão a acessar o Portal da Transparência da Câmara Municipal de Várzea Grande e verificar alguns pontos. Um deles é a questão das verbas indenizatórias, por exemplo, relacionadas aos veículos utilizados por servidores comissionados ou outros carros vinculados à Câmara.
Uma instituição que se apresenta como transparente precisa disponibilizar todas as informações de forma clara. No entanto, ao acessar o portal, muitas vezes o cidadão não consegue identificar qual servidor utiliza determinado veículo ou quais são exatamente os valores pagos.
É possível verificar informações sobre veículos e remunerações, mas ainda existem questionamentos sobre a divulgação das verbas indenizatórias, inclusive aquelas autorizadas pela própria presidência da Câmara. É preciso mostrar quanto é pago e quais são os valores envolvidos de forma detalhada.
Também é cobrada transparência em relação aos gastos com comunicação do Poder Executivo, mas fica o questionamento: a Câmara Municipal também está disposta a apresentar, com o mesmo nível de detalhamento, todos os gastos realizados nessa área durante o período atual?
Por isso, vejo uma certa incoerência nesse discurso de transparência adotado pela atual gestão da Câmara, principalmente sob a presidência de Wanderley Cerqueira.
COPopular- Vereador, o senhor tem defendido mudanças no transporte público coletivo de Várzea Grande, incluindo propostas como o passe livre e a criação de uma CPI para investigar o funcionamento do serviço. Na sua avaliação, quais são hoje os principais problemas que impedem a melhoria efetiva do transporte coletivo e quais medidas precisam ser adotadas para garantir um serviço de melhor qualidade à população?
Caio Cordeiro- Primeiramente, o transporte coletivo precisa deixar de estar nas mãos de grupos políticos, que é o que acontece hoje em Várzea Grande. É por isso que tenho feito esses enfrentamentos.
Vocês acompanham diariamente as reclamações da população que depende desse serviço. E o que vemos é uma situação que precisa ser debatida com responsabilidade. Quando faço essas críticas, não falo por achismo. Sempre procuro me basear em documentos e informações oficiais.
Eu nunca faço ataques pessoais, mas questiono aquilo que está registrado em documentos públicos. E esses documentos mostram que o proprietário da empresa União Transporte é o senhor Rômulo Botelho, irmão do deputado estadual Eduardo Botelho. A partir daí, existe uma relação política que precisa ser observada.
Até esse ponto, uma relação familiar ou política, por si só, não representa um problema. A questão é quando existem outros fatores envolvidos. O presidente da Câmara, por exemplo, é um apoiador declarado do deputado Botelho, e percebemos que qualquer discussão envolvendo o transporte coletivo acaba encontrando dificuldades dentro do município.
Não foi apenas a minha CPI que enfrentou obstáculos. Mesmo seguindo o Regimento Interno da Câmara e cumprindo os procedimentos previstos, fui encaminhado à Comissão de Ética e Decoro Parlamentar para que minha conduta fosse avaliada justamente por seguir aquilo que determina o regimento.
Às vezes, passa a impressão de que o regimento é interpretado conforme a conveniência de alguns. Quando alguém cobra o cumprimento das regras, acaba sendo questionado.
Eu também fico atento quando alguém precisa reafirmar constantemente suas próprias qualidades. Quando uma pessoa repete o tempo todo que é honesta ou que tem as mãos limpas, isso acaba gerando questionamentos. A avaliação da população deve acontecer pelos atos e pelas atitudes.
O importante é garantir que todos tenham espaço para falar e que a população possa acompanhar os dois lados. Muitas vezes, quem está do outro lado da situação não apresenta a mesma visão que é divulgada por quem ocupa uma posição de poder.
COPopular- Vereador, Várzea Grande frequentemente é alvo de críticas em relação ao cenário político e ao funcionamento do Legislativo municipal. Na sua avaliação, quais fatores contribuíram para esse desgaste da imagem da política na cidade? O que explica as dificuldades enfrentadas pelo município em comparação com outras cidades de Mato Grosso e o que precisa ser feito para mudar essa realidade?
Caio Cordeiro- Eu penso que hoje essa visão que a população tem sobre a política de Várzea Grande também é resultado do avanço da tecnologia e dos mecanismos de transparência, que permitiram mostrar com mais clareza a atuação dos representantes públicos.
Antes, eu costumava dizer que a Câmara de Várzea Grande funcionava muitas vezes como um ‘puxadinho’ da Prefeitura. Era uma situação em que o prefeito que estivesse no mandato tinha grande influência sobre o Legislativo, e a Câmara acabava seguindo essa orientação sem muito espaço para contrapontos. Era difícil encontrar uma oposição atuante.
Hoje, com uma população mais informada e acompanhando mais de perto o trabalho dos vereadores, as pessoas conseguem perceber o peso que um parlamentar e, principalmente, quem ocupa a presidência da Câmara, pode ter nos rumos de uma cidade.
Eu mesmo, estando dentro do Legislativo, não imaginava que alguém pudesse chegar a determinado nível de influência a ponto de, na minha avaliação, prejudicar o andamento do município, como acredito que ocorreu na gestão do presidente Wanderley Cerqueira.
Vejo que essa situação também é resultado de uma construção política histórica, de grupos que durante muito tempo tiveram predominância em Várzea Grande e criaram determinadas narrativas sobre como a política deveria funcionar na cidade.
Quando fui candidato, eu tinha 28 anos e era o vereador mais jovem da Câmara de Várzea Grande. Naquela época, eu ouvia muito que, sem o apoio dos Campos, seria praticamente impossível conseguir uma eleição. Isso também influenciava a visão do eleitor, que muitas vezes acreditava que, para a cidade avançar, seria necessário escolher alguém ligado aos grupos tradicionais.
Eu sempre escutava aquela frase de que, se os Campos colocassem até um poste como candidato em Várzea Grande, ele seria eleito. Mas essa realidade vem mudando. O que estamos vendo agora é um conflito de narrativas, tanto dentro da política quanto entre a população, que começa a avaliar de uma forma diferente seus representantes e as estruturas tradicionais de poder.
COPopular- Vereador, recentemente o senhor passou a divulgar atendimentos realizados fora do gabinete e afirmou que isso ocorreu após uma restrição ao uso do espaço dentro da Câmara. Pode explicar o que motivou essa situação, quem tomou essa decisão e quais alternativas o senhor encontrou para manter o contato com a população?
Caio Cordeiro- Infelizmente, nós já solicitamos várias vezes ao presidente da Câmara que revogue essa portaria. O que chama atenção é que, desde o início do mandato, meu gabinete sempre funcionou em horário ampliado para atender melhor a população.
Mesmo com o expediente oficial da Câmara encerrando às 13h, nós mantínhamos o atendimento durante todo o dia, geralmente das 7h às 18h, porque entendemos que o cidadão precisa ter acesso ao vereador. Além disso, as próprias secretarias municipais funcionam até mais tarde, então era uma forma de facilitar o encaminhamento de demandas, elaboração de ofícios e comunicação com os órgãos públicos.
Com a nova portaria, passamos a organizar os atendimentos por agendamento, justamente para evitar que a população fique esperando por longos períodos. Nós tínhamos, por exemplo, atendimentos no período da tarde, principalmente às quartas-feiras, quando muitos moradores conseguiam comparecer.
Após alguns enfrentamentos e uma sessão em que houve discussões internas, na semana seguinte foi publicada uma portaria que, segundo a minha interpretação, restringiu o atendimento ao público dentro dos gabinetes após as 13h. Também houve mudanças relacionadas aos cargos dos nossos assessores.
A portaria permite que vereadores, assessores e servidores permaneçam na Câmara após esse horário, mas impede, segundo o documento, que cidadãos entrem para serem atendidos nos gabinetes durante esse período.
Essa regra não vale apenas durante o recesso, ela permanece em vigor de forma permanente. Ou seja, depois das 13h, o vereador pode estar no gabinete, o assessor pode estar trabalhando, mas o cidadão não pode ser recebido naquele espaço.
Eu questiono essa decisão porque a Câmara é a Casa do Povo. Quando chega o período eleitoral, o cidadão é fundamental, participa, escolhe seus representantes e acompanha o trabalho dos vereadores. Então, não faz sentido impedir que essa mesma população tenha acesso ao parlamentar dentro da própria Câmara.
O que mais me chamou atenção foi uma declaração feita pelo assessor da presidência, durante uma discussão sobre o assunto. Pelo que foi colocado, existiria uma preocupação com os custos gerados pela entrada de cidadãos na Câmara para serem atendidos.
Na minha visão, essa justificativa causa estranheza, porque o vereador e o assessor já estão na estrutura da Câmara, independentemente de haver ou não atendimento. A presença da população buscando atendimento não deveria ser vista como um gasto, mas como parte da função do Legislativo.



