Mato Grosso deve enfrentar nos próximos meses um cenário de estiagem mais severa do que o registrado em outras regiões do país. A previsão de redução das chuvas, associada aos efeitos do fenômeno El Niño, levou representantes dos governos federal e estadual a discutir medidas de prevenção com prefeitos e entidades municipalistas nesta quinta-feira (20), durante reunião na Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM).
O alerta não está relacionado apenas ao risco de incêndios florestais. Uma seca prolongada pode afetar o abastecimento de água, aumentar a pressão sobre as estruturas municipais, comprometer atividades do campo e gerar impactos econômicos em um dos principais estados produtores do país.
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A avaliação apresentada durante o encontro é de que a preparação precisa começar antes do agravamento das condições climáticas. A intenção é evitar que as prefeituras sejam obrigadas a improvisar medidas quando a falta de chuva e os incêndios já estiverem fora de controle.
O ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT), afirmou que o governo federal iniciou uma articulação com estados e municípios depois que os institutos de meteorologia indicaram a possibilidade de um cenário mais grave.
“Depois que os institutos de meteorologia estabeleceram que esse fenômeno poderá ser grave, e o Mato Grosso é um dos estados que pode ser mais atingido, nós estamos discutindo preventivamente as ações”, afirmou.
A estratégia, segundo o ministro, é tratar os problemas de acordo com as características de cada região. Em vez de concentrar a resposta apenas em Brasília ou no governo estadual, a proposta é levantar previamente as necessidades dos municípios.
O alerta mais preocupante veio da Defesa Civil de Mato Grosso. O secretário adjunto do órgão, coronel BM Marcelo Augusto Reveles Carvalho, afirmou que o comportamento esperado do El Niño no Estado é diferente daquele previsto para outras partes do país.
Enquanto algumas regiões podem enfrentar aumento de chuvas e ocorrência de vendavais, Mato Grosso pode ter como principal consequência a redução da precipitação.
“Aqui a estiagem vai ser mais severa”, afirmou o secretário.
Segundo ele, a análise feita pela Defesa Civil para os próximos 90 dias aponta para um período de seca mais intenso. A previsão também indica que a quantidade de chuva pode permanecer abaixo do padrão histórico mesmo em janeiro.
Se o cenário se confirmar, os efeitos poderão ser sentidos durante um período mais longo, aumentando a pressão sobre cidades que já enfrentam dificuldades para manter estruturas de prevenção e resposta a emergências.
A situação é especialmente sensível porque Mato Grosso possui grandes áreas rurais, extensas regiões de vegetação e municípios distantes dos principais centros urbanos. Em casos de incêndios de grandes proporções ou problemas de abastecimento, a distância pode dificultar o deslocamento de equipes e equipamentos.
Um dos problemas apontados durante a reunião está dentro das próprias prefeituras. Cerca de 30% dos municípios de Mato Grosso ainda não possuem uma coordenadoria municipal de Defesa Civil, segundo o governo estadual.
A estrutura é responsável por organizar ações de prevenção, monitoramento e resposta a situações de emergência em nível local.
Para a Defesa Civil estadual, a ausência dessas equipes representa uma fragilidade justamente porque o município costuma ser o primeiro ponto de contato com a população atingida.
“Aproximadamente 30% dos municípios de Mato Grosso ainda não têm [coordenadoria municipal de defesa civil], mas já fizemos os contatos com todos os prefeitos por meio da AMM e já está diminuindo esse número”, explicou Marcelo Reveles.
A intenção é ampliar a estrutura antes que os efeitos da estiagem se agravem. A avaliação do governo estadual é que uma prefeitura preparada consegue identificar mais rapidamente os riscos e acionar os órgãos responsáveis quando precisa de apoio.
A articulação também pode facilitar o acesso a equipamentos e recursos de outras esferas de governo.
A preocupação com o período de seca não é apenas uma projeção. Mato Grosso já convive com ocorrências de incêndios em áreas rurais e de vegetação.
Um dos exemplos citados durante a discussão foi Jangada, a cerca de 80 quilômetros de Cuiabá, que decretou situação de emergência após enfrentar incêndios de grandes proporções.
Para o governo federal, casos como esse mostram que a resposta precisa ultrapassar os limites de cada município.
O ministro José Guimarães defendeu uma ação coordenada para evitar que cidades tenham de buscar sozinhas equipamentos e estruturas necessárias para enfrentar situações de emergência.
“Tem que ter uma ação nacionalizada para enfrentar um dos efeitos mais graves que pode comprometer o crescimento da economia brasileira nesse segundo semestre”, afirmou.
Entre os recursos que podem ser necessários estão caminhões-pipa, aeronaves e equipes especializadas.
A Defesa Civil estadual informou que já utiliza apoio aéreo em situações consideradas críticas. Segundo Marcelo Reveles, quando o Corpo de Bombeiros identifica a necessidade de aeronaves para combater incêndios, o pedido é encaminhado à Defesa Civil.
“Sempre que há necessidade de um apoio para o combate aéreo dos incêndios florestais, o Corpo de Bombeiros nos aciona e nós imediatamente enviamos aeronaves para qualquer lugar do estado”, disse.
A utilização desses equipamentos busca impedir que os focos avancem para áreas maiores e reduzir o tempo necessário para controlar as chamas.
Além dos incêndios, a possibilidade de uma estiagem prolongada preocupa diretamente o setor produtivo.
A agricultura e a pecuária dependem da disponibilidade de água e das condições climáticas. Uma redução significativa das chuvas pode aumentar custos, comprometer pastagens e afetar o planejamento das lavouras.
Durante a agenda na AMM, representantes do setor também apresentaram demandas relacionadas ao endividamento dos produtores rurais.
Guimarães citou uma medida provisória negociada pelo governo federal com integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária para permitir a renegociação de dívidas.
O ministro afirmou, porém, que a discussão precisa alcançar também produtores que não estão inadimplentes, mas enfrentam dificuldades financeiras.
“Também precisamos estabelecer uma linha de renegociação para os adimplentes, que também são aqueles que estão produzindo e estão meio sufocados”, afirmou.
A declaração amplia o debate sobre os efeitos econômicos de eventos climáticos extremos. Mesmo produtores que conseguem manter seus pagamentos em dia podem enfrentar redução de receita ou aumento de despesas quando as condições de produção pioram.
A principal preocupação apresentada durante o encontro é impedir que a atuação do poder público comece somente depois que os prejuízos já estiverem instalados.
O governo federal pretende realizar reuniões específicas com representantes das diferentes regiões para identificar as necessidades locais e definir medidas de prevenção.
Segundo Guimarães, a Casa Civil vem mantendo conversas com a Confederação Nacional dos Municípios, governadores e prefeitos.
A lógica defendida pelo ministro é que uma eventual crise climática não deve ser tratada como uma questão exclusivamente estadual ou municipal.
“Primeiro, a parceria com os municípios”, afirmou.
A articulação ganha importância porque os impactos da seca não atingem todos os municípios da mesma forma. Enquanto algumas cidades podem enfrentar problemas de abastecimento, outras podem concentrar os esforços no combate a incêndios ou no atendimento à população rural.
Por isso, a definição antecipada das necessidades pode permitir que os recursos sejam direcionados para os locais onde houver maior risco.
Ao defender a integração entre as diferentes esferas de governo, Guimarães afirmou que divergências políticas não deveriam impedir a construção de medidas para enfrentar os eventos climáticos.
“Quando têm determinadas ações, você não tem que discutir se é oposição ou não ao governo, tem que enfrentar o problema”, declarou.
A fala ocorre em um estado onde governos municipais, estadual e federal são comandados por grupos políticos diferentes em vários municípios.
Para o ministro, uma eventual disputa política pode acabar prejudicando a população caso dificulte a circulação de recursos ou a cooperação entre os órgãos públicos.
“Não pode deixar de dialogar, porque, senão, é o Estado que será prejudicado”, afirmou.
A proposta é manter uma interlocução permanente durante o período de maior risco climático.
Apesar dos alertas apresentados, a previsão climática não significa que todos os impactos projetados necessariamente irão ocorrer da mesma forma. As condições podem mudar conforme a evolução do fenômeno e das chuvas.
Ainda assim, a possibilidade de uma estiagem mais intensa já levou os órgãos públicos a antecipar o planejamento.
Para Mato Grosso, o desafio é particularmente grande porque a combinação entre seca, incêndios e impactos sobre a produção pode atingir diferentes setores ao mesmo tempo.
A estrutura das prefeituras também será colocada à prova, principalmente nos municípios que ainda não contam com equipes próprias de Defesa Civil.
A expectativa é que a articulação iniciada na AMM resulte em medidas específicas para cada região, incluindo reforço das estruturas municipais, planejamento para combate aos incêndios e mecanismos de apoio aos produtores.
O governo federal também deverá levar para Brasília as demandas apresentadas pelos municípios mato-grossenses.
Até lá, a principal recomendação dos órgãos envolvidos é antecipar ações. Com a previsão de chuva abaixo da média e possibilidade de prolongamento da estiagem, a preparação dos municípios será decisiva para reduzir os efeitos de um período de seca que pode atingir Mato Grosso de maneira mais intensa nos próximos meses.
Mais do que responder aos incêndios quando eles surgirem ou enviar ajuda depois que uma cidade decretar emergência, o desafio colocado agora é estruturar uma rede capaz de agir antes que a crise climática se transforme em uma sequência de emergências locais.



