Uma pesquisa desenvolvida por cientistas brasileiros resultou em uma tecnologia inovadora capaz de identificar, em cerca de seis minutos, anticorpos contra o vírus H5N1, responsável pela gripe aviária. Conhecido como "língua eletrônica", o dispositivo apresentou índice de acerto próximo de 99% durante os testes e desponta como uma alternativa promissora para ampliar a vigilância sanitária nas granjas e auxiliar no controle de doenças infecciosas.
Os resultados foram publicados na revista científica ACS Applied Nano Materials e divulgados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Inspirado no funcionamento da língua humana, o equipamento utiliza um conjunto de sensores para reconhecer padrões presentes nas amostras analisadas. Em vez de identificar sabores, como ocorre naturalmente no organismo, o sistema detecta alterações elétricas provocadas pela presença de anticorpos específicos contra o vírus da gripe aviária.
Esses sensores foram produzidos com materiais de baixo custo e proteínas obtidas de fontes renováveis. As informações coletadas são processadas por algoritmos de inteligência artificial, capazes de interpretar os sinais e indicar, com elevado grau de confiabilidade, se houve contato prévio com o vírus H5N1.
Durante a fase de validação, o equipamento demonstrou alta sensibilidade, conseguindo identificar até pequenas concentrações de anticorpos. Outro resultado considerado importante foi a ausência de falsos positivos quando o sistema foi submetido a amostras contendo anticorpos de outras doenças que também afetam aves, garantindo uma taxa de precisão próxima de 99%.
Além da confiabilidade, a rapidez é um dos principais diferenciais da tecnologia. Enquanto exames laboratoriais tradicionais podem levar horas para serem concluídos, o novo método fornece o diagnóstico em poucos minutos, permitindo respostas mais ágeis diante de possíveis focos da doença.
Os pesquisadores acreditam que a ferramenta poderá ser empregada futuramente em granjas, laboratórios, clínicas veterinárias e centros de vigilância epidemiológica. A plataforma também foi projetada para receber adaptações que possibilitem a detecção de outros vírus e enfermidades, inclusive aquelas que afetam seres humanos.
O estudo foi coordenado pelo professor Osvaldo Novais de Oliveira Junior, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP). Segundo o pesquisador, a iniciativa reúne diferentes tecnologias desenvolvidas no Brasil. As medições foram realizadas com um analisador portátil produzido por uma startup nacional, enquanto a interpretação dos resultados ficou a cargo de sistemas baseados em aprendizado de máquina.
Além da USP, participaram do projeto pesquisadores da Embrapa Instrumentação, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e de instituições internacionais parceiras, com apoio financeiro da Fapesp.
A criação chega em um momento de atenção mundial para a gripe aviária. A doença representa uma das maiores ameaças sanitárias à cadeia produtiva de aves, causando prejuízos econômicos expressivos e podendo, em casos específicos, infectar seres humanos. A identificação rápida de focos da enfermidade é considerada uma das principais estratégias para conter sua disseminação, evitar o abate em massa de animais e reduzir impactos sobre as exportações e o abastecimento do mercado.



