O Instituto Conhecer Brasil, organização não governamental contratada pela Prefeitura de São Paulo para a implantação e manutenção de pontos de acesso gratuito à internet em comunidades da capital, pagou R$ 341,9 mil a um escritório de advocacia que também atuou na defesa do deputado federal Mário Frias (PL-SP) em ações judiciais.
De acordo com dados de prestação de contas obtidos pelo Estadão, os repasses foram realizados sem detalhamento claro dos serviços prestados. A contratação do escritório Aguilera Martinez foi revelada inicialmente pelo portal UOL.
O Instituto Conhecer Brasil é presidido por Karina da Gama, empresária ligada à produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), roteiro do qual também participa o deputado Mário Frias.
A entidade está sob investigação da Polícia Civil de São Paulo por suspeita de fraude e possível desvio de recursos públicos no contrato firmado com a Prefeitura, que prevê a instalação de até 5 mil pontos de Wi-Fi livre em áreas periféricas da capital. O acordo, assinado em 2024, soma R$ 108 milhões, podendo chegar a R$ 157,1 milhões após aditivos.
Segundo a investigação, há indícios de possível confusão patrimonial entre o instituto e empresas ligadas à produção audiovisual, além de suspeitas de que parte dos recursos públicos possa ter sido desviada para outras finalidades. A Prefeitura de São Paulo nega irregularidades e afirma que o contrato seguiu todas as exigências legais.
Pagamentos sob análise
Conforme a prestação de contas, o escritório de advocacia recebeu um total de 12 pagamentos entre julho de 2024 e julho de 2025, incluindo um repasse inicial de R$ 151 mil e outras 11 parcelas de R$ 17,3 mil mensais. Os valores são descritos como serviços jurídicos, sem detalhamento específico das atividades realizadas.
No mesmo período, o mesmo escritório também atuava na defesa do deputado Mário Frias em processos judiciais, incluindo ações eleitorais e uma ação na Justiça estadual de São Paulo.
As investigações apontam ainda que outros repasses realizados pela ONG, com recursos públicos, teriam sido direcionados a empresas e profissionais com vínculos indiretos com pessoas ligadas à entidade, o que levanta suspeitas de conflito de interesses e possível irregularidade na execução do contrato.
Investigação e contratos públicos
O caso integra um inquérito mais amplo conduzido pela Polícia Civil, que apura supostos desvios em contratos de tecnologia e inclusão digital financiados com recursos públicos municipais. Os investigadores também solicitaram análises financeiras ao Coaf para rastrear a movimentação de valores entre empresas e dirigentes envolvidos.
A Prefeitura de São Paulo afirma colaborar com as investigações e sustenta que não há comprovação de irregularidades até o momento. Já a defesa da ONG e dos envolvidos não se manifestou publicamente sobre os questionamentos apresentados na investigação.



