O último debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), transmitido pela TV Globo nesta sexta-feira (23), é acompanhado por iniciativas de checagem de informações em tempo real. A proposta é confrontar as declarações dos candidatos com dados oficiais, documentos e informações verificadas, permitindo que o público identifique possíveis distorções enquanto acompanha o confronto.
Segundo a contagem informada durante o acompanhamento do debate, Flávio Bolsonaro já teria acumulado 33 declarações classificadas como falsas até o momento. Entre as falas que levantaram questionamentos estão acusações sobre a regulamentação das apostas on-line, os gastos do governo federal, a taxa básica de juros, os valores pagos a profissionais de saúde e o histórico do Bolsa Família.
A iniciativa de checagem ao vivo foi anunciada pelo Grupo Globo para esta edição do debate, com divulgação das verificações durante a transmissão e continuidade do trabalho após o encerramento do programa. O serviço Fato ou Fake utiliza dados estatísticos, documentos oficiais, estudos e consultas a especialistas para analisar afirmações verificáveis.
Ao criticar o governo federal, Flávio Bolsonaro associou o presidente Lula à criação e à liberação das apostas on-line, conhecidas popularmente como jogo do Tigrinho, e atribuiu ao petista a responsabilidade pelo crescimento desse mercado.
“Ele é o pai do Tigrinho, ele é o pai do Cassino Online, ele criou, ele liberou. Aí, chegando perto da eleição, ele vai e cancela. O atual presidente da República tem dois filhos que fizeram muito mal ao país, o Lulinha e o Tigrinho”, afirmou.
A declaração reúne acusações políticas e afirmações que precisam ser analisadas separadamente. A regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil envolve decisões de diferentes governos e mudanças legislativas. Por isso, atribuir a uma única pessoa a criação e a liberação de todo o mercado exige contextualização histórica e legal.
Outro trecho questionado envolve a afirmação de que Lula teria gasto mais de R$ 405 bilhões para tentar garantir a reeleição.
“Lula, você gastou mais de 405 bilhões de reais pra tentar se reeleger nos próximos dias”, declarou Flávio.
O senador também afirmou que o valor não estaria previsto na proposta orçamentária enviada pelo governo para o ano seguinte.
Para avaliar a acusação, é necessário identificar a origem dos R$ 405 bilhões, quais despesas foram incluídas no cálculo e se os valores correspondem a gastos efetivamente realizados, despesas autorizadas, benefícios sociais ou projeções orçamentárias. Sem essa discriminação, a cifra, isoladamente, não comprova que os recursos tenham sido utilizados com finalidade eleitoral.
Na discussão sobre saúde pública, Flávio afirmou que uma obstetra recebe R$ 443 por parto.
“Uma médica que... uma obstetra que faz um parto, por exemplo, ela recebe 443 reais só por um parto”, disse.
A verificação desse dado depende da identificação da tabela de remuneração utilizada, do procedimento considerado e da diferença entre o valor pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ao estabelecimento de saúde e o pagamento efetivamente recebido pela profissional.
Sem essa distinção, o número não permite concluir, por si só, quanto uma médica recebe pelo atendimento realizado.
A política econômica também foi alvo de críticas. Flávio atribuiu o patamar dos juros à expansão dos gastos públicos e afirmou que o governo aumenta impostos para cobrir as despesas.
“A taxa de juro oficial no Brasil hoje tá aí, em torno de 14%, porque é um governo gastador”, declarou.
A fala estabelece uma relação direta entre os gastos federais, os juros e a arrecadação de impostos. A taxa básica de juros, a Selic, é definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, com base na avaliação do cenário econômico, das expectativas de inflação e dos riscos associados à política monetária.
O resultado fiscal e a trajetória da dívida pública podem influenciar as expectativas do mercado e as decisões sobre juros. Entretanto, afirmar que a taxa decorre exclusivamente dos gastos do governo simplifica um conjunto de fatores econômicos que precisam ser considerados na análise.
Ao abordar os programas sociais, Flávio afirmou que, durante os governos anteriores de Lula, os beneficiários recebiam valores entre R$ 75 e R$ 120 e que Jair Bolsonaro elevou o benefício para, no mínimo, R$ 600.
“Antigamente, no governo dele, o Bolsa Família era ali 75 reais, 120 reais que você recebia. O presidente Bolsonaro passou pra no mínimo 600 reais, no mínimo 600 reais”, afirmou.
A comparação exige contextualizar os valores pagos em diferentes períodos, as regras de composição dos benefícios e as mudanças promovidas pelos governos. O Bolsa Família passou por diferentes formatos e critérios de pagamento ao longo dos anos, enquanto o Auxílio Brasil, criado durante o governo Bolsonaro, teve o valor mínimo ampliado para R$ 600 em 2022.
Também é necessário distinguir o programa vigente em cada período das medidas temporárias adotadas durante a campanha eleitoral daquele ano. A apresentação de valores de épocas diferentes, sem explicar essas mudanças, pode produzir uma comparação incompleta.
O debate da Globo é o último encontro televisivo entre os dois candidatos antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25). Além do Fato ou Fake, outras iniciativas jornalísticas também acompanham as declarações em tempo real, entre elas a Agência Lupa e o UOL Confere.
A divulgação das verificações busca oferecer ao eleitor elementos para avaliar as afirmações feitas pelos candidatos e separar dados comprováveis de acusações políticas, informações imprecisas e declarações falsas.



