Uma família é investigada por suspeita de utilizar um projeto religioso para prestar apoio comunicacional, financeiro e logístico a integrantes de uma facção criminosa. A apuração resultou em uma prisão preventiva, além de mandados de busca e apreensão de dispositivos eletrônicos e medidas cautelares que incluem a quebra de sigilos telefônico, telemático e bancário. Também foi determinada a suspensão temporária do ingresso dos investigados em unidades prisionais por meio de projetos religiosos. (Veja vídeo no final da matéria)
As investigações apontam que uma suposta atividade missionária realizada dentro de unidades prisionais teria sido usada para facilitar o contato com internos, intermediar recados, aproximar familiares e lideranças criminosas, receber e dissimular valores e ampliar a inserção dos investigados junto a uma facção com atuação no Rio de Janeiro.
Os envolvidos são investigados por suspeitas de integrar organização criminosa, corrupção de menor, tortura e lavagem de dinheiro. Segundo a apuração, valores atribuídos a presos e lideranças criminosas teriam sido movimentados por meio de contas de familiares e terceiros, com fracionamento, triangulação financeira, depósitos em espécie e sucessivos repasses.
As diligências começaram após uma denúncia anônima apontar que integrantes de uma mesma família utilizavam um projeto religioso para ingressar na Penitenciária Central do Estado e, supostamente, entregar celulares, carregadores e outros objetos ilícitos a lideranças custodiadas na unidade. A entrega dos celulares, no entanto, ainda não foi comprovada.
A análise de dados autorizada judicialmente revelou fotografias, vídeos, conversas e registros financeiros que, segundo os investigadores, indicam que a relação dos suspeitos com presos, foragidos e integrantes da facção ultrapassava a assistência religiosa.
Entre os elementos reunidos estão conversas telefônicas com detentos, intermediação de recados entre internos e pessoas em liberdade e contatos frequentes com conselheiros da facção presos e foragidos. Também foram identificadas informações relacionadas ao ambiente prisional.
A investigação aponta ainda indícios de que integrantes da família teriam recebido valores ligados a criminosos e utilizado os recursos para custear viagens, procedimentos estéticos e a compra de veículos. Para os investigadores, a movimentação pode configurar lavagem de dinheiro por meio da ocultação da origem e da destinação dos recursos.
Outro ponto da apuração envolve viagens frequentes ao Rio de Janeiro. Conforme os indícios reunidos, integrantes do grupo estiveram em uma residência utilizada por um criminoso foragido, localizada em uma área dominada por uma facção. No local, foram produzidos registros fotográficos e audiovisuais ao lado de armas de fogo e rádios comunicadores, alguns com referências à organização criminosa.
As imagens também mostram evangelistas ao lado de lideranças da facção, foragidos da Justiça e pessoas responsáveis pela segurança armada dos criminosos. A investigação encontrou ainda registros de crianças portando armas e fotografias dos próprios investigados manipulando diferentes armamentos.
Videochamadas analisadas durante a apuração também indicaram contato direto entre mulheres ligadas ao projeto religioso e lideranças foragidas e pessoas armadas. Em um dos registros, um conselheiro foragido aparece em uma chamada enquanto um comparsa dispara um fuzil em uma comunidade.
Segundo a investigação, as mulheres vinculadas ao projeto realizavam viagens ao Rio de Janeiro, frequentavam áreas dominadas pela facção e mantinham relacionamentos pessoais e íntimos com integrantes da organização. Parte dos deslocamentos teria sido custeada pelos próprios criminosos.
As conversas analisadas também apontaram a intermediação de contatos com presos e a comunicação direta com internos por telefone. Em um dos episódios, uma investigada teria solicitado a aplicação de um “salve” contra um homem acusado de furto, expressão associada a punições determinadas por organizações criminosas.
Outro elemento apurado envolve diálogos sobre a venda de uma arma de fogo que estaria escondida em uma propriedade rural utilizada pela família. O caso foi analisado em conjunto com fotografias de armamentos e registros de convivência com integrantes armados da facção.
A jovem que foi alvo da prisão preventiva é investigada por, com a participação dos pais, utilizar a estrutura familiar para prestar suporte operacional e comunicacional à organização criminosa. A suspeita é de que o acesso ao sistema prisional, obtido por meio da atividade religiosa, tenha sido usado para facilitar a aproximação e o apoio a lideranças presas ou foragidas.
As investigações continuam com a análise do material apreendido, o rastreamento dos valores movimentados e a individualização da conduta de cada suspeito. O objetivo é concluir o inquérito e avaliar eventual indiciamento dos envolvidos.
O nome da investigação faz referência ao suposto uso da atividade religiosa para promover aproximação, comunicação e suporte a integrantes de uma organização criminosa, em possível desvio da finalidade declarada.
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