O avanço da tecnologia transformou a forma como os brasileiros trabalham, estudam, se comunicam e se divertem. O celular, que há pouco mais de duas décadas era utilizado quase exclusivamente para chamadas telefônicas, tornou-se uma ferramenta indispensável no cotidiano. Entretanto, à medida que cresce a conectividade, aumentam também as preocupações com os impactos do uso excessivo das telas sobre a saúde física e mental da população.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, em 2024, cerca de 167,5 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais possuíam telefone celular para uso pessoal, o equivalente a 88,9% da população dessa faixa etária. No mesmo período, a internet estava presente em 93,6% dos domicílios do país, alcançando aproximadamente 74,9 milhões de residências.
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O acesso também se tornou mais democrático entre as regiões brasileiras. O Nordeste apresentou o maior crescimento na presença de internet entre 2023 e 2024, enquanto o uso continua predominante nas áreas urbanas, onde chega a 94,7% dos domicílios, contra 84,8% na zona rural. O celular permanece como o principal equipamento utilizado para acessar a internet, consolidando-se como parte essencial da rotina dos brasileiros.
Além da expansão da conectividade, o levantamento do IBGE revela mudanças no consumo de entretenimento. Os serviços pagos de streaming alcançaram 32,7 milhões de domicílios em 2024, um crescimento de 1,5 milhão em relação ao ano anterior. Em contrapartida, a televisão por assinatura segue em retração, presente em apenas 24,3% das residências com aparelho de televisão.
Embora a tecnologia tenha ampliado o acesso à informação e aproximado pessoas, especialistas alertam que o uso descontrolado pode trazer consequências importantes para a saúde. Entre elas está a nomofobia, termo utilizado para descrever o medo excessivo de ficar sem acesso ao celular ou desconectado da internet.
Pesquisas nacionais e internacionais apontam que esse comportamento já afeta diferentes faixas etárias. Uma revisão científica realizada com mais de 36 mil participantes em 18 países identificou que aproximadamente metade das pessoas apresenta sintomas moderados de nomofobia, enquanto cerca de um em cada cinco entrevistados demonstra sintomas considerados graves.
O problema é especialmente evidente entre adolescentes, considerados nativos digitais. Estudos indicam que aproximadamente 25% dos jovens brasileiros apresentam sinais de dependência da internet. O acesso também ocorre cada vez mais cedo: levantamentos apontam que mais da metade das crianças com até três anos já utiliza smartphones e que praticamente todos os adolescentes entre 10 e 12 anos têm acesso ao aparelho.
Entretanto, a dependência digital deixou de ser uma preocupação exclusiva dos mais jovens. Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) analisaram estudos realizados ao longo de 11 anos envolvendo cerca de 50 mil idosos, dos quais 11 mil brasileiros, e concluíram que o uso excessivo do celular também está associado ao aumento da ansiedade, da insônia e da dificuldade para identificar golpes virtuais e notícias falsas entre pessoas com mais de 60 anos.
Segundo os pesquisadores, o problema não está apenas na quantidade de horas diante da tela, mas principalmente na forma como esse tempo é utilizado. Conteúdos que geram ansiedade, isolamento ou consumo compulsivo podem provocar impactos mais significativos do que aqueles voltados ao aprendizado, ao entretenimento saudável ou ao fortalecimento dos vínculos familiares.
Outro fator que preocupa especialistas é a interferência da tecnologia na qualidade do sono. A exposição prolongada à luz emitida pelos celulares reduz a produção de melatonina, hormônio responsável pela regulação do sono, dificultando o descanso e favorecendo quadros de insônia. Além disso, a necessidade constante de verificar notificações mantém o cérebro em estado de alerta, comprometendo o relaxamento necessário antes de dormir.
Os reflexos também aparecem na produtividade e nas relações sociais. O hábito de interromper atividades para consultar mensagens ou redes sociais reduz a concentração, aumenta o tempo necessário para concluir tarefas e favorece uma sensação permanente de urgência. Ao mesmo tempo, a comunicação presencial acaba sendo substituída por interações virtuais, mesmo quando familiares e amigos estão fisicamente próximos.
Especialistas recomendam que o uso da tecnologia seja acompanhado de estratégias de equilíbrio, como estabelecer períodos sem celular ao longo do dia, evitar o uso do aparelho antes de dormir, praticar atividades ao ar livre e fortalecer momentos de convivência presencial. No caso dos idosos, o incentivo ao letramento digital também é considerado fundamental para reduzir riscos relacionados à desinformação e aos golpes virtuais.
Cada vez mais presente na vida cotidiana, a tecnologia oferece inúmeras possibilidades de comunicação, informação e aprendizado. O desafio, segundo pesquisadores, está em encontrar um ponto de equilíbrio que permita aproveitar seus benefícios sem transformar a conectividade permanente em um fator de prejuízo para a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida.



