A entrevista aborda propostas e críticas do candidato ao Governo de Mato Grosso, Maurício Coelho, em temas que devem estar entre os principais debates da campanha: financiamento eleitoral, polarização política, contas públicas, servidores e custo de vida.
Ao longo da conversa, Coelho explica por que decidiu não utilizar recursos do Fundo Eleitoral ou do Fundo Partidário, critica o que considera uso excessivo da polarização entre direita e esquerda e apresenta propostas para o Fethab, o pagamento do RGA e as dívidas de servidores.
O candidato também detalha uma das principais promessas de seu plano de governo: reduzir em até 30% o custo de itens básicos, como alimentação, moradia, transporte e energia, por meio de medidas voltadas principalmente à redução dos custos de produção e ao fortalecimento do mercado interno.
Na entrevista, Maurício Coelho ainda fala sobre financiamento de campanhas, relação com lideranças nacionais, gestão fiscal e suas propostas para aumentar o poder de compra da população.
COPopular- O senhor tem criticado candidatos adversários que utilizam recursos do Fundo Eleitoral. Se estivesse disputando a eleição por um partido que tivesse direito a receber esses recursos, o senhor abriria mão do dinheiro público para financiar sua própria campanha?
Mauricio Coelho- Sou candidato de um partido que tem Fundo Eleitoral. Todos os partidos têm direito a esse recurso, ao contrário do Fundo Partidário, que varia conforme a representatividade.
Desde a pré-campanha, assumi o compromisso de não utilizar Fundo Eleitoral, Fundo Partidário, qualquer outro recurso público ou doações de grandes empresários. Quando oficializei a candidatura, comuniquei à direção nacional do meu partido que não queria receber recursos do Fundo Eleitoral, e eles não enviaram.
Ao contrário do que alguns candidatos fazem parecer, o uso desse dinheiro não é obrigatório. O candidato pode comunicar ao partido que não concorda em receber os recursos.
Eu penso que o contribuinte não deveria ser obrigado a financiar a campanha de um candidato que não apoia. O Fundo Eleitoral faz com que, na prática, um eleitor tenha que ajudar a financiar candidatos de posições políticas que não defende.
O que eu digo ao eleitor é: quando você vir um adesivo, uma bandeira ou qualquer estrutura de campanha, lembre-se de que existe dinheiro público envolvido. Quanto maior a campanha, maior pode ser o gasto.
Nesta eleição, candidatos como Natasha, Wellington Fagundes e Pivetta receberam recursos do Fundo Eleitoral. A Natasha recebeu R$ 4,5 milhões do PSD; Wellington Fagundes, R$ 5 milhões do PL; e Pivetta havia recebido R$ 1 milhão do União Brasil, segundo os dados que eu tinha consultado. Esse último valor precisa ser atualizado porque novos repasses podem ter ocorrido.
A população também pode estabelecer limites sobre como quer que as campanhas sejam feitas. Em Gramado, por exemplo, candidatos retiraram bandeiras das ruas depois que moradores se manifestaram contra a propaganda.
Quando a população cobra, a forma de fazer política também pode mudar. Precisamos ampliar esse debate e dar mais consciência ao eleitor sobre como as campanhas são financiadas.
COPopular- O senhor acredita que a polarização entre direita e esquerda é, em parte, uma estratégia política para manter grupos no poder por meio de narrativas de confronto?
Mauricio Coelho- Eu não acho que seja necessariamente um teatro, mas acredito que a polarização faz com que o eleitor vote em candidatos na esteira de outras lideranças.
Não faz sentido imaginar que alguém vai votar em mim apenas porque eu indico determinado candidato a presidente. Da mesma forma, não acredito que alguém vá votar em Bolsonaro porque Wellington Fagundes está pedindo, ou em Lula porque Natasha está pedindo. O que ocorre é que alguns candidatos tentam se beneficiar de votos que essas lideranças já possuem.
O problema é que isso acaba desviando o debate das propostas. No horário eleitoral, muitos candidatos falam sobre quem apoiam, mas pouco sobre o que pretendem fazer.
O eleitor precisa saber mais do que a posição ideológica do candidato. Precisa conhecer suas propostas, o que pretende fazer e como pretende agir.
Votar em alguém apenas porque ele apoia determinada liderança pode levar o eleitor a descobrir depois que os dois pensam e agem de maneiras diferentes.
Precisamos amadurecer o debate e permitir que o eleitor conheça melhor as propostas e o posicionamento de cada candidato.
COPopular- Em relação ao seu plano de governo, que prevê reverter o fim do Fethab 2 para garantir o pagamento do RGA e assumir integralmente as dívidas de servidores com empréstimos consignados, essas medidas são tecnicamente e financeiramente viáveis?
Mauricio Coelho- Primeiro, o Fethab 1 continua normalmente. O Fethab 2 foi extinto neste ano para deixar de valer no próximo.
O que estamos discutindo é a necessidade de não deixar de arrecadar esses recursos. Não considero inteligente simplesmente não reeditar o Fethab 2, mas também precisamos olhar para a situação dos pequenos produtores, que estão pressionados pelo baixo poder de negociação na venda da produção e pelo aumento dos custos dos insumos.
Por isso, tenho defendido uma engenharia financeira. Nas contas públicas, não importa apenas o valor arrecadado, mas também a origem e a forma como esse recurso pode ser utilizado.
A proposta é criar uma taxa com arrecadação semelhante à do Fethab 2, mas que seja destinada à conta única do Estado. Isso permitiria maior flexibilidade na aplicação dos recursos.
Ao mesmo tempo, podemos compensar os produtores com cerca de R$ 1,3 bilhão em créditos de ICMS sobre o diesel. Esses créditos poderiam ser utilizados nas operações com transportadoras. A ideia é também pressionar as distribuidoras para que esse combustível seja comercializado diretamente ao produtor a preço de repasse.
Com isso, a economia para o produtor poderia chegar a R$ 2,3 bilhões, valor superior ao que o Fethab 2 arrecadaria no próximo ano.
Também é preciso considerar que nem todo o valor arrecadado pelo Estado fica disponível para livre utilização. Existem repasses obrigatórios ao Judiciário, Tribunal de Contas e municípios, além dos percentuais constitucionais destinados à saúde e à educação. Por isso, o valor efetivamente disponível para o Estado é bem menor.
O Fethab pode contribuir para o pagamento do RGA, mas não seria suficiente para cobrir todo o custo.
O governador tem afirmado que o pagamento do RGA custaria R$ 4 bilhões. É preciso diferenciar o custo bruto do custo líquido. Quando esse dinheiro chega aos servidores, parte retorna ao poder público por meio do Imposto de Renda e do consumo, que gera arrecadação de ICMS.
Por isso, considero que o custo líquido seria de aproximadamente R$ 3 bilhões.
Minha proposta é combinar os recursos do Fethab com a revisão de renúncias fiscais para criar condições de financiar o RGA sem comprometer as contas públicas.
COPopular- No seu livro, o senhor afirma que seria possível reduzir em 30% os custos de itens como alimentação, aluguel e energia e, ao mesmo tempo, aumentar a renda da população. Qual é a estratégia econômica para alcançar essa redução de 30% nos preços ao longo de quatro anos e, na prática, como isso funcionaria?
Mauricio Coelho- Estamos falando dos itens que compõem o custo básico de vida: alimentação, moradia, transporte e energia.
É preciso reduzir esse custo para aumentar a renda disponível das pessoas. Quando uma família gasta menos com o básico, sobra mais dinheiro para consumo e isso pode estimular a economia e gerar aumento de renda.
Para reduzir os custos, precisamos atuar sobre os insumos. Uma das propostas é oferecer condições para que produtores tenham acesso a insumos mais baratos, mas vinculando esse benefício a uma contrapartida.
Por exemplo, um produtor de soja ou milho poderia ter acesso a fertilizantes mais baratos desde que destinasse uma parcela da produção ao mercado interno com desconto. Essa redução poderia ser repassada ao longo da cadeia, chegando aos produtos consumidos pela população.
A ideia é criar mecanismos que permitam reduzir os preços no mercado interno sem necessariamente acompanhar os valores praticados no mercado externo.
Hoje, um trabalhador brasileiro que ganha R$ 2 mil precisa disputar alimentos com consumidores de países onde a renda é muito maior. Isso não é razoável.
São estratégias econômicas para reduzir o custo de vida e aumentar o poder de compra da população.



