28 de Julho de 2026

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ENTREVISTA DA SEMANA Terça-feira, 28 de Julho de 2026, 10:58 - A | A

Terça-feira, 28 de Julho de 2026, 10h:58 - A | A

"Não fui cassado pelos áudios, fui cassado porque incomodei", afirma Arthur do Val sobre a perda do mandato

“Não fingi que não fui eu”

Ana Carolina Guerra
Tangará Online
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Michel Jesus

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Arthur do Val, conhecido nacionalmente como "Mamãe Falei"é o entrevistado desta edição. Ativista político, influenciador digital e ex-deputado estadual por São Paulo, ganhou projeção nas redes sociais ao produzir vídeos de debates políticos em espaços públicos, tornando-se um dos principais nomes do Movimento Brasil Livre (MBL).

Eleito deputado estadual em 2018 com mais de 478 mil votos, um dos maiores resultados daquele pleito em São Paulo, também disputou a Prefeitura da capital paulista em 2020. Em 2022, teve o mandato cassado pela Assembleia Legislativa de São Paulo após a repercussão de áudios divulgados durante uma viagem à Ucrânia, episódio que marcou sua trajetória política. 

Na entrevista, Arthur faz uma avaliação sobre a cassação, comenta os desdobramentos daquele episódio, fala sobre o futuro do MBL, analisa o cenário político nacional e apresenta as propostas que o movimento defende para o Brasil, além de abordar temas como democracia, combate aos privilégios, liberdade de expressão e as eleições de 2026.

Centro Oeste Popular – Sua cassação pela Assembleia Legislativa de São Paulo ocorreu após a repercussão dos áudios divulgados durante a viagem à Ucrânia. Passados alguns anos, como o senhor avalia aquele episódio? Mudou sua percepção sobre as declarações que fez e sobre a decisão da Assembleia de cassar seu mandato?

Arthur do Val – Bom, não poderia ter cometido esse erro. Essa é uma coisa que sempre me perguntam: "Você se arrepende dos áudios?"
Claro que me arrependo, porque eu não deveria ter cometido o erro de confiar e de enviar esse tipo de áudio. Eu não tenho um arrependimento moral, porque não acho que fiz algo moralmente condenável. Fiz uma brincadeira em um grupo privado, em um ambiente privado.
É claro que, quando você tira uma fala do contexto, feita em um ambiente de descontração e brincadeira, e a leva para o ambiente público, isso causa um choque.
Agora, sobre a cassação em si, acho que essa é a parte mais clara dessa história. Todo mundo sabe que eu não fui cassado por causa desses áudios.

Centro Oeste Popular – O senhor afirma que sua cassação foi uma retaliação por ter enfrentado privilégios na Assembleia e não uma consequência exclusiva do episódio que motivou o processo. Que evidências sustentam essa avaliação e como responde aos que defendem que a cassação decorreu da gravidade de suas próprias declarações?

Arthur do Val – Fui cassado porque fui o deputado que mais incomodou as pessoas lá. É sempre importante lembrar que, durante a minha legislatura, um deputado assediou, de fato, uma deputada dentro da Casa, passou as mãos nos seios dela e não foi cassado.
Então, por que eu fui cassado? Fui cassado porque, pela primeira vez na história, foi reduzido o salário dos deputados por causa de uma briga que eu comprei. Pela primeira vez na história, um deputado, sozinho, acabou com o auxílio-peru de todos os deputados e assessores da Casa. Pela primeira vez na história, um deputado, sozinho, acabou com um contrato milionário de publicidade da Assembleia.
Pela primeira vez na história, os deputados ficaram sem o auxílio-carro de R$ 4.500 por mês. Pela primeira vez na história também, os deputados não conseguiram aumentar o salário dos fiscais de renda, que, inclusive, haviam feito doações para esses parlamentares.
Eu subi à tribuna, apontei o nome de cada um e disse quanto cada deputado receberia dos fiscais de renda. Então, incomodei muita gente. Em muito pouco tempo de mandato, fui o deputado que mais combateu privilégios na história da Assembleia, como costumo dizer.
Eles estavam apenas esperando um deslize meu. Eu cometi esse deslize, e eles aproveitaram para me puxar o tapete.

Centro Oeste Popular – Na pandemia, houve uma redução de 30% no salário dos deputados estaduais. O senhor defendia um corte de 50% e que a medida também alcançasse os cargos comissionados. Por que considera que a solução aprovada foi insuficiente?

Arthur do Val – Na época, protocolei uma proposta para que a redução fosse de 50%, mas a Assembleia aprovou um corte de 30% apenas nos salários dos deputados. Os assessores não tiveram redução.
Na minha avaliação, o corte deveria ter atingido todos: deputados e assessores. Nós travamos essa discussão em abril de 2020, se não me engano, e, ao final, a Mesa Diretora chegou a um acordo: nem os 50% que eu defendia, nem a manutenção integral dos salários. Ficou definida uma redução de 30% apenas para os deputados.
Bom, foi melhor isso do que nada. Pela primeira vez na história, uma medida desse tipo foi adotada.

Centro Oeste Popular – Na época do vazamento do áudio, o senhor e outros integrantes do MBL fizeram pedidos públicos de desculpas. Hoje, olhando em retrospecto, acredita que aquela foi a estratégia correta ou avalia que teria conduzido a crise de outra forma? O senhor se arrepende da forma como lidou publicamente com aquele episódio?

Arthur do Val – Sim. Na verdade, o meu vídeo sobre o episódio não tem a expressão "eu me desculpo", e isso foi de propósito. O que eu fiz foi um pedido de desculpas às pessoas que se decepcionaram com o meu amadorismo. Em meio a uma briga tão grande, cometi esse erro, mas não baixei a cabeça para a patrulha.
Há três coisas que eu não fiz. A primeira: não fingi que o áudio não era meu. Não disse que era inteligência artificial ou que era mentira.
A segunda: não terceirizei a culpa. Não disse que a culpa era do machismo estrutural, do sistema ou de qualquer outra coisa. Assumi que a culpa era minha.
E a terceira: não baixei a cabeça para a patrulha. Não disse: "Olha, pessoal, na verdade eu sou um machista em desconstrução". Não. Eu falei a verdade: o áudio era meu. Eu falo bobagens e até coisas piores no meu WhatsApp, como, na minha opinião, todo homem hétero saudável faz.
"Ah, então você é machista?" Não. Eu não sou machista. Eu não falei aquilo para nenhuma mulher. Isso é algo que considero muito importante: o alvo daquilo que você diz faz diferença.
Se você chega para uma mulher que está se sentindo gorda e diz "sua gorda", na minha visão, isso é muito mais condenável do que um homem que, em um grupo privado, apenas com outros homens, fala um monte de besteiras sobre mulheres de forma geral.

Centro Oeste Popular – O senhor afirma que não interpreta um personagem e que mantém coerência entre o discurso e a prática. No entanto, muitas pessoas associam sua imagem ao estilo provocador que marcou o 'Mamãe Falei'. Como pretende equilibrar essa comunicação mais combativa com a responsabilidade de representar um mandato e dialogar com diferentes setores da sociedade?

Arthur do Val – Não. Na verdade, "Mamãe Falei" é o nome do meu canal. Eu não sou um personagem.
O que existe é que todo ser humano deve ter posturas diferentes em ambientes diferentes. Se estou em um velório, não vou contar uma piada. Se estou em um show de stand-up, não vou fazer um discurso moralista. As pessoas precisam agir de forma compatível com o ambiente em que estão.
Agora, você não pode ser um personagem de si mesmo. E eu não sou. Isso é algo que até quem não gosta de mim reconhece.
Você pode gostar de mim, pode não gostar, pode me odiar ou discordar das minhas ideias, mas eu sou autêntico. Inclusive, nunca perdi a minha base de apoiadores porque ninguém nunca viu o meu discurso seguir um caminho e as minhas atitudes outro.
Por mais que, às vezes, eu faça declarações contundentes ou defenda posições das quais muitas pessoas discordem, ninguém pode dizer que eu falo uma coisa e pratico outra. Isso nunca aconteceu.
Por isso, acredito que ninguém deve ser um personagem de si mesmo.

Centro Oeste Popular- O MBL já elegeu um deputado estadual em Mato Grosso, mas a trajetória dele foi marcada pelo rompimento com o movimento e pela ausência de reeleição. Que lições o MBL tirou dessa experiência e o que seria diferente caso o movimento voltasse a eleger um representante no estado?

Arthur do Val – Cara, que bom que você tocou nesse nome. O Ulisses, infelizmente, contou com o meu apoio na época. Ele não apenas fez um trabalho pífio, como, na minha avaliação, fez justamente o oposto daquilo que a gente defendia.
Não vou citar nomes nem episódios específicos porque não quero responder a processos, mas acredito que as pessoas entendam do que estou falando.
E o que sobrou para ele? Fazer o que muita gente faz: buscar o público menos crítico. Desculpe a expressão, mas é um público que não exige coerência, que prefere idolatrar um político. Basta fingir que você também idolatra essa pessoa para conquistar um espaço e ganhar popularidade.
Agora, nós amadurecemos muito. Aquela eleição foi em 2018, já faz oito anos. Nesse período, o MBL conseguiu filtrar melhor as pessoas que fazem parte do movimento. A própria ruptura com o Bolsonaro serviu como um filtro. Se alguém é oportunista, busca apenas likes, seguidores ou apoio fácil, esse não é o lugar onde vai prosperar, porque nós estamos dispostos a perder para defender aquilo em que acreditamos.
Isso foi fundamental. Além disso, o movimento amadureceu e entendeu que não basta apoiar pessoas que aparentam ser bem-intencionadas. É preciso que elas demonstrem, ao longo do tempo, compromisso com aquilo que defendem.
Vou dizer o seguinte: acredito que não cometeremos esse mesmo erro novamente. Todo movimento que cresce e reúne muitas pessoas está sujeito a diferentes perfis e diferentes julgamentos morais. Isso faz parte.
O que posso garantir é que as pessoas que estão hoje no movimento passaram por esse processo de seleção. São pessoas que aceitaram perder likes, votos, apoio e até serem xingadas em nome da defesa daquilo em que verdadeiramente acreditam.

Centro Oeste Popular – O senhor afirmou que a pobreza facilita a compra de votos e defendeu a proposta de pagar um auxílio para que parte dos eleitores deixe de votar. Como essa medida seria compatível com os princípios constitucionais do sufrágio universal e da participação democrática, e de que forma evitaria a exclusão política da população mais vulnerável?

Arthur do Val – Mas o ponto é o seguinte: nós temos projetos para, de fato, tirar essas regiões da pobreza. Quando você lê o Livro Amarelo, percebe que, apesar dos memes e das brincadeiras, há propostas sérias para que o Brasil se desenvolva economicamente e deixe de ter lugares onde políticos chegam dizendo: "Eu amo essas pessoas, sempre gostei de cuidar de gente", mas acabam perpetuando a pobreza porque, nesses locais, é mais fácil comprar votos. Essa é a minha avaliação.
Posso até me parafrasear: eles são mais fáceis porque são pobres. Refiro-me aos eleitores que vendem seus votos. Na minha visão, quanto mais pobre a pessoa está, mais barato ela vende o voto.
Inclusive, temos uma proposta polêmica sobre isso, que chamamos, entre aspas, de "compra do não voto". A ideia é a seguinte: quem optar por não votar receberia um auxílio do governo para permanecer fora do processo eleitoral.
Segundo essa proposta, quem realmente quiser participar da eleição abriria mão desse benefício para exercer o direito ao voto. Com isso, pessoas que, na minha avaliação, votam motivadas por promessas de ampliação de programas sociais, como Bolsa Família, Pé-de-Meia ou outros benefícios, deixariam de influenciar a decisão eleitoral.
Na minha visão, isso evitaria que parte do eleitorado votasse motivada por interesses imediatos, enquanto a população economicamente ativa e produtiva, que sustenta o país, teria maior peso nas decisões tomadas nas urnas.

 
 

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