19 de Outubro de 2026

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ENTREVISTA DA SEMANA Segunda-feira, 19 de Outubro de 2026, 08:00 - A | A

Segunda-feira, 19 de Outubro de 2026, 08h:00 - A | A

“Não estamos em um berço esplêndido só porque estamos em Brasília”, afirma Coronel Fernanda

Parlamentar também avalia o resultado das eleições, nas quais recebeu mais de 200 mil votos, e destaca os desafios enfrentados pelas mulheres em cargos públicos

Lucas Leite
Tangará Online
[email protected]

Reprodução

CORONEL FERNANDA

A deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) falou sobre o resultado expressivo nas urnas, as expectativas para a próxima legislatura e os desafios enfrentados por mulheres na política. Reeleita com mais de 200 mil votos, a parlamentar também comentou as ameaças de morte que afirma receber em razão de seu posicionamento político e destacou as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em espaços de poder.

Na entrevista, Coronel Fernanda avaliou ainda o desempenho do PL na disputa pelas oito vagas de Mato Grosso na Câmara Federal e comentou a repercussão das declarações da deputada estadual eleita Eduarda Campopiano sobre o feminicídio. À frente da Procuradoria da Mulher da Câmara dos Deputados, a parlamentar abordou a importância da legislação de proteção às mulheres, do acolhimento às vítimas de violência e do combate à violência doméstica.

Ao longo da conversa, a deputada também ressaltou a necessidade de ampliar a participação feminina na política e defendeu um olhar mais atento às questões sociais, familiares e à realidade da população mato-grossense.


COPopular- Como a senhora recebeu a marca histórica de mais de 200 mil votos, tornando-se a mais votada da história? Esperava alcançar uma votação tão expressiva ou imaginava um número menor para a sua reeleição?

Coronel Fernanda- Meu sonho era ultrapassar os 250 mil votos, porque, assim, eu seria a dona exclusiva da minha cadeira, né? E teríamos condições de mostrar que as mulheres podem fazer muito mais.
Fico muito feliz. Hoje, estava conversando com algumas pessoas que me apoiaram, e elas demonstraram muita alegria com o resultado. Elas diziam: “Coronel, a gente chegava aos lugares e, às vezes, antes mesmo de pedir voto para o nosso candidato estadual, a pessoa já falava: ‘Olha, eu quero o santinho daquela mulher, daquela coronel. Vou votar nela, na Coronel Fernanda’”.
Então, foi uma votação muito espontânea. As pessoas me apoiaram muito, e fico muito feliz por isso. É reflexo do trabalho e do posicionamento.

COPopular- Como a senhora avalia o resultado do PL na Câmara Federal, que conquistou três das oito cadeiras destinadas a Mato Grosso, e qual será o impacto dessa representatividade para o partido e para o estado?

Coronel Fernanda- Três cadeiras das oito. Era para a gente ter conseguido muito mais, mas cada coisa acontece no seu momento. Espero que a gente consiga ser bastante construtiva nesta nova legislatura, que eu consiga avançar nas pautas em que acredito e que defendo, além de ajudar cada vez mais o estado de Mato Grosso.

 

COPopular- Coronel, a senhora relatou ter recebido ameaças de morte, incluindo mensagens em que a pessoa afirmava conhecer seu endereço, seus horários de saída da Câmara dos Deputados e até o veículo blindado que utiliza. Qual foi a gravidade dessas ameaças, a senhora tem alguma suspeita sobre quem estaria por trás delas e acredita que essas intimidações possam estar relacionadas à sua atuação política?

Coronel Fernanda- Eu recebo ameaças todos os dias, palavras pesadas e ataques pessoais por causa do meu posicionamento e da minha postura. Há uma mulher que está fazendo vídeos, e eu já acionei a polícia, que tomou algumas providências.
Decidi trazer essa ameaça a público porque considerei que ela foi muito mais grave e contundente. Quis mostrar às pessoas que não estamos em um berço esplêndido só porque estamos em Brasília, viajando de avião e voltando para casa toda semana. As pessoas precisam entender que também enfrentamos dificuldades e que, se não tivermos fé e um objetivo, acabamos parando no meio do caminho.
Para as mulheres, a política é muito mais difícil. Para os homens, a política já é vista como algo mais natural. Eles foram preparados para enfrentar situações difíceis e para proteger. As mulheres, por outro lado, foram preparadas para serem protegidas e para viver momentos de maior tranquilidade. Mas a política não oferece essa tranquilidade às mulheres.
Ainda assim, nós somos necessárias na política, porque existem assuntos que dizem respeito diretamente a nós. E não falo apenas de questões relacionadas às mulheres, mas também de temas que envolvem a família e a sociedade. Afinal, somos mais de 50% da população brasileira e, muitas vezes, precisamos ter um olhar diferente sobre determinadas pautas.
Tive um exemplo disso em uma pauta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), em que conseguimos a aprovação de uma proposta após uma discussão bastante intensa. Um grupo dizia que a medida era um privilégio, enquanto outro minimizava a importância da situação.
A proposta permitia, por exemplo, que professores da zona rural pegassem carona nos ônibus que transportam as crianças até as escolas. Havia parlamentares que não aceitavam a ideia e argumentavam que isso seria um privilégio. Outros não compreendiam a importância da medida.
Naquele dia, fiz a defesa da proposta, e o capitão Alberto, de Pernambuco, também me ajudou. Eu estava responsável por conduzir a aprovação na CCJ e argumentei que aquilo não era um privilégio, pois não geraria prejuízos nem custos adicionais aos cofres públicos. O ônibus já passaria pelo local de qualquer maneira.
Estamos falando de mulheres e homens que trabalham como professores na zona rural, muitos deles percorrendo de 50 a 100 quilômetros. A presença desses profissionais no ônibus também poderia contribuir para dar mais segurança às crianças durante o trajeto.
É preciso ter uma visão diferente, compreender a realidade das pessoas e tratá-las como gostaríamos de ser tratados. Tenho procurado agir dessa forma. As mulheres, muitas vezes, enfrentam situações difíceis e confrontos mais duros, mas nosso objetivo não é ser brutas, e sim conseguir atender às necessidades de alguém ou resolver determinada situação.
Estou na política para ajudar as pessoas. Às vezes, a população não entende como uma pauta é construída nos bastidores. Nós sabemos o resultado que pode ocorrer se não nos posicionarmos, porque, por trás das cortinas, acordos já foram feitos de outra maneira, e nem sempre concordamos com eles.

 

COPopular- Coronel, considerando sua atuação na Procuradoria da Mulher da Câmara dos Deputados e sua defesa da participação feminina na política, como a senhora avalia a declaração da deputada estadual eleita Eduarda Campopiano, do mesmo partido, de que o feminicídio não existe? Qual é o seu posicionamento sobre essa afirmação e como a senhora, enquanto representante de uma função institucional voltada à defesa dos direitos das mulheres, acredita que deve se posicionar diante de declarações como essa?

 

Coronel Fernanda- Eu conversei com ela, e ela me disse: “Coronel, não é que eu seja contra o feminicídio, mas sou contra essa qualificadora, a forma como isso está escrito na lei”.
Segundo ela, uma mulher pode morrer por várias razões, e a nomenclatura não teria ficado adequada. Existem, no Direito Penal, outras tipificações, como a ameaça e outras questões relacionadas.
Ela se posicionou dessa forma e disse que gostaria de conversar comigo posteriormente. Pelo que entendi da nossa conversa, ela se mostrou bastante aberta. A informação que recebi é que talvez não tenha conseguido se expressar da maneira como gostaria.
Mas a lei do feminicídio existe e é necessária para que possamos compreender o problema que estamos enfrentando: a violência contra a mulher. Às vezes, a expressão “feminicídio”, no sentido de matar uma mulher por ela ser mulher, pode gerar discussões sobre o significado do termo e as circunstâncias previstas na lei.
A violência contra a mulher está muito ligada à violência doméstica. O feminicídio pode ocorrer nesse contexto, quando o companheiro passa a enxergar a mulher não como um ser humano, mas como uma propriedade, um objeto que lhe pertence.
Existem muitas questões envolvidas nesse tema que precisamos compreender. A administração pública só pode fazer aquilo que está previsto em lei. Quando existe uma legislação específica para proteger as mulheres, o poder público pode direcionar investimentos e recursos para combater esse tipo de violência.
Portanto, há muitas questões envolvidas. Pela conversa que tive com ela, entendi que a forma como se expressou não correspondeu exatamente à maneira como a declaração foi divulgada. Talvez tenha faltado alguma palavra ou uma forma mais adequada de se expressar.
Entendo, porém, que o feminicídio precisa ser discutido e que precisamos proteger cada vez mais as mulheres.
Como procuradora da Mulher, tenho desenvolvido um trabalho importante na Procuradoria, oferecendo apoio para que elas se sintam acolhidas e confortáveis para buscar ajuda.
Quando eu ainda estava na ativa na polícia, via como era difícil para uma mulher registrar um boletim de ocorrência ou chegar à delegacia e relatar que havia sido agredida pelo marido. Muitas vezes, ela virava motivo de piada. Alguns policiais não compreendiam a importância de combater esse tipo de violência ou de atender adequadamente a ocorrência. Ainda existia aquela ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.
Faltava sensibilidade para ouvir essas mulheres. Muitas eram ridicularizadas e, por causa disso, desistiam de registrar a ocorrência.
Diante dessa realidade, protocolei um projeto de lei na Câmara dos Deputados, que foi aprovado pela Câmara e pelo Senado e, posteriormente, sancionado. Trata-se do protocolo de atendimento às vítimas de violência sexual, incluindo mulheres e crianças.
Antes, uma mulher chegava à delegacia e muitas vezes nem sabia a quem deveria se dirigir. Em vez de acolhimento, podia enfrentar perguntas constrangedoras, acompanhadas de comentários inadequados, como: “Você deu?”, “Você mostrou?”, “O que você fez?”, “Por que essa pessoa fez isso com você?” ou “Você se insinuou?”.
São perguntas que constrangem qualquer mulher. Nenhuma mulher merece ser vítima de qualquer tipo de violência. Não estamos aqui para isso.
Queremos apenas ter liberdade para trabalhar, sair, casar e exercer plenamente nossa cidadania. É isso que queremos.
Por isso, quando o assunto é a mulher, não podemos olhar para a lei de maneira fria. Precisamos analisar a situação de forma ampla, considerando todos os aspectos envolvidos, porque existem questões emocionais, patrimoniais e muitas outras.
Não é possível discutir tudo isso em uma única resposta. Mas uma coisa podemos afirmar: a violência contra a mulher precisa ser combatida, e combatida de verdade.


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