Cuiabá figura entre as capitais brasileiras com os índices mais elevados de mortalidade no trânsito, consolidando um cenário que preocupa especialistas, familiares de vítimas e autoridades. Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), compilados pelo Observatório da Saúde Pública da Umane, apontam que a capital mato-grossense registrou taxa de 18,9 mortes por acidentes de transporte para cada 100 mil habitantes, índice superior à média nacional, de 18 óbitos por 100 mil habitantes.
O levantamento coloca Cuiabá na quinta posição entre as capitais com maior taxa de mortalidade no trânsito do país, atrás apenas de Palmas, Porto Velho, Teresina e Boa Vista. Logo atrás aparecem Campo Grande e Goiânia. Em contraste, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador registram algumas das menores taxas do Brasil.
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O cenário local acompanha uma realidade ainda mais preocupante em Mato Grosso. Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) mostram que mais de 7,9 mil pessoas perderam a vida em acidentes de trânsito ao longo da última década. No período analisado, o número anual de mortes praticamente dobrou, saltando de 531 para 1.043 vítimas, crescimento de aproximadamente 96%.
Apenas cinco municípios concentram cerca de 40% de todas as mortes registradas no estado. Cuiabá lidera o ranking, com mais de 1,1 mil óbitos ao longo da década. Em seguida aparecem Sinop, com 628 mortes, Várzea Grande, com 601, Rondonópolis, com 572, e Sorriso, com 253 vítimas fatais.
Enquanto o Brasil apresentou redução recente nos registros de mortes no trânsito, o estado seguiu na direção oposta. A taxa estadual alcança 26,79 mortes para cada 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional, estimada em 11,69 mortes por 100 mil habitantes.
Em âmbito nacional, os acidentes de trânsito provocaram mais de 38 mil mortes, configurando o maior número registrado nos últimos anos e mantendo uma sequência de crescimento observada desde o período pós-pandemia. A mortalidade nacional aumentou cerca de 14% no período, evidenciando o agravamento da violência nas ruas e estradas brasileiras.
Os homens continuam sendo as principais vítimas, representando mais de 82% dos óbitos registrados. A faixa etária mais atingida concentra adultos entre 25 e 54 anos, grupo que reúne mais da metade de todas as mortes contabilizadas. Os dados também apontam que pessoas pardas lideram as estatísticas nacionais de vítimas fatais.
Além das perdas humanas, os acidentes geram impactos significativos para a saúde pública. Somente os acidentes envolvendo motociclistas resultaram em mais de 150 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS), crescimento superior a 260% em comparação aos registros observados pouco mais de uma década atrás.
Para o representante da Associação dos Familiares Vítimas da Violência no Trânsito de Mato Grosso (AFVV), Heitor Reyes, a combinação entre álcool e direção continua sendo um dos principais fatores associados às tragédias registradas diariamente nas vias urbanas e rodovias. Segundo ele, apesar dos avanços obtidos com a fiscalização e a aplicação da Lei Seca, ainda existe sensação de impunidade em muitos casos.
Além disso, defende o endurecimento das penalidades para motoristas envolvidos em acidentes fatais e aponta a reincidência como um dos fatores que demonstram a necessidade de medidas mais rigorosas. Outro problema destacado por ele é a infraestrutura urbana.
Segundo o representante da entidade, a falta de manutenção do asfalto, a presença de buracos, sinalização deficiente e a ausência de alertas adequados em trechos em obras aumentam significativamente os riscos para motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres.
Os números ganharam ainda mais destaque após uma sequência de acidentes registrados em Cuiabá, Várzea Grande e municípios do interior, que deixaram pelo menos sete mortos em poucos dias.
Um dos casos mais recentes e que reforçou o debate sobre a segurança viária ocorreu na Avenida da FEB, em Várzea Grande. Imagens registradas por câmeras instaladas em um caminhão flagraram o acidente que resultou na morte de Alice da Silva Barros, de 64 anos.
As imagens mostram o momento em que um veículo colide contra carros que estavam parados próximos a uma faixa de pedestres, provocando uma sequência de impactos. De acordo com a investigação da Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito (Deletran), o motorista não percebeu a parada dos veículos à frente e não manteve a distância de segurança exigida pela legislação.
Com a colisão, um dos automóveis foi lançado contra uma motocicleta. O motociclista perdeu o controle, subiu na calçada e atingiu Alice e sua irmã, Paulina Neres de Barros, de 70 anos. Um dos veículos envolvidos ainda parou sobre Alice, que morreu no local. Outras vítimas ficaram feridas e foram encaminhadas para atendimento médico.
Segundo a Polícia Civil, o motorista apontado como responsável pelo acidente responderá por homicídio culposo na direção de veículo automotor. Conforme a investigação, ele permaneceu no local, colaborou com os procedimentos policiais e realizou o teste do bafômetro, que não indicou consumo de álcool.
Outros acidentes recentes reforçam a gravidade da situação. Na MT-010, em Rosário Oeste, uma colisão entre veículos provocou a morte da dentista Maria Salete Ottonelli, de 66 anos, além de Antônio Souza, de 57 anos, e sua esposa, Adailce dos Santos, de 55 anos.
Na BR-070, entre Nossa Senhora do Livramento e Várzea Grande, um motociclista de 62 anos morreu após ser atingido por uma caminhonete. Informações preliminares apontaram deficiência de iluminação pública e problemas de sinalização como fatores que podem ter contribuído para o acidente.
Em Cuiabá, dois jovens motociclistas também perderam a vida em ocorrências distintas. Felipe Alves de Oliveira, de 19 anos, morreu após colidir contra um poste na Avenida das Torres. Já Sávio Henrique Martins Silva, de 26 anos, faleceu depois de perder o controle da motocicleta e atingir um poste na Avenida Fernando Corrêa da Costa.
Casos semelhantes também foram registrados em municípios do interior, como Matupá e Nova Mutum, ampliando a estatística de vítimas fatais no estado.
Os números revelam que o desafio vai além da fiscalização. Especialistas defendem investimentos contínuos em educação para o trânsito, melhoria da infraestrutura urbana, ampliação da sinalização, manutenção das vias e campanhas permanentes de conscientização.



