A biosseguridade deixou de ser apenas uma ferramenta de prevenção contra doenças e passou a ocupar um papel estratégico dentro da produção animal brasileira. Em um cenário marcado por exigências sanitárias mais rigorosas, mudanças climáticas e novas barreiras comerciais, investir em medidas preventivas nas granjas tornou-se essencial para garantir produtividade, sustentabilidade e competitividade ao setor pecuário.
Segundo o diretor-presidente da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Animal (Facta), Ariel Mendes, os protocolos de biosseguridade proporcionam ganhos que vão além da proteção dos rebanhos, influenciando diretamente a eficiência produtiva. “Animais mais sadios têm menos doenças e com isso eles consomem e transformam melhor a energia da ração em carne produzida, ou em ovos, no caso das galinhas poedeiras”, destacou.
Na avicultura de corte, por exemplo, aves saudáveis atingem o peso ideal para o abate em menos tempo, reduzindo o período de criação e, consequentemente, a emissão de gases associada ao processo produtivo. A uniformidade dos lotes também é favorecida, já que a menor incidência de doenças permite um desenvolvimento mais homogêneo dos animais, facilitando as operações nos frigoríficos e a organização das cargas destinadas ao mercado interno e às exportações.
Outro impacto positivo está relacionado à redução do uso de antimicrobianos. De acordo com Mendes, o Brasil vem adotando há anos práticas que atendem às exigências dos mercados internacionais, com empresas substituindo parte dos antibióticos por alternativas capazes de manter a saúde dos animais sem comprometer o comércio exterior.
O especialista explicou que a recente restrição da União Europeia à carne de frango brasileira não esteve relacionada ao uso de substâncias proibidas, mas à avaliação do bloco europeu de que o sistema oficial de fiscalização precisava ser reforçado. Para atender à exigência, o governo brasileiro apresentou um novo protocolo que prevê inspeções presenciais em 1% das granjas e estabelecimentos exportadores, realizadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) ou pelos órgãos estaduais de defesa agropecuária.
“A expectativa do setor é que agora, a partir do início de setembro, a gente volte a exportar, porque até lá já rodou um ciclo de frango, que é curto, entre 42 e 45 dias, dentro desse novo protocolo definido pelo Mapa e apresentado para a União Europeia”, afirmou Mendes.
A sanidade animal também é apontada como um dos principais diferenciais competitivos do Brasil no mercado internacional. Maior exportador mundial de carne de frango e um dos maiores fornecedores globais de carne bovina, o país tem na capacidade de controle sanitário um fator decisivo para manter a confiança dos compradores.
Para Mendes, os mercados internacionais entendem que nenhum país está completamente livre da ocorrência de doenças. O que diferencia os fornecedores é a capacidade de identificar rapidamente possíveis focos e adotar medidas eficazes de contenção.
Como exemplo, ele citou a resposta brasileira diante do foco de influenza aviária registrado no Rio Grande do Sul, que permitiu a retomada das exportações em cerca de 40 dias após o cumprimento dos protocolos sanitários exigidos.
Além de reduzir riscos de interrupções comerciais, a biosseguridade contribui para o atendimento de exigências específicas dos países compradores, como protocolos de bem-estar animal e regras de abate halal para mercados islâmicos, facilitando a liberação das cargas e reduzindo custos logísticos.
Na avaliação do diretor da Facta, a combinação entre prevenção sanitária, rastreabilidade e capacidade de resposta a emergências consolida o Brasil como um fornecedor confiável de proteína animal no cenário mundial. “Isso garante para os países importadores que vai ter um fornecedor confiável. Então, isso é um ponto bastante importante”, concluiu.



