O ex-governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, fez um balanço de sua gestão à frente do Estado, destacou as medidas adotadas para enfrentar a crise fiscal herdada no início do mandato e afirmou que as decisões tomadas foram essenciais para o reequilíbrio das contas públicas e retomada dos investimentos.
Ao longo da conversa, Mauro também comentou os principais desafios administrativos enfrentados, defendeu ações estruturantes implementadas pelo governo e avaliou o impacto das obras realizadas em diferentes regiões do estado. O ex-governador ainda falou sobre sua relação com Cuiabá, o cenário político atual da capital e tratou de articulações eleitorais para o futuro, incluindo possíveis composições partidárias e sua pré-candidatura ao Senado Federal.
COPoplar- Mauro, ao fazer um balanço do seu ciclo de gestão e considerando os números positivos na área fiscal, olhando em retrospecto, qual foi a decisão mais difícil que o senhor tomou e que ainda repercute em sua avaliação até hoje?
Mauro- Acho que muitas decisões que nós tomamos foram, até certo ponto, difíceis, mas, ao mesmo tempo, necessárias. Eu dizia no início do governo que muitas medidas que adotamos, por mais que naquele momento fossem mal compreendidas, eram absolutamente essenciais para que pudéssemos reorganizar o Estado de Mato Grosso, promover a recuperação das contas públicas e, a partir daí, cumprir aquilo que é o papel do Estado, do município e até mesmo da União: prestar serviços de qualidade.
Você não presta nenhum serviço de qualidade, um serviço eficiente, se não tiver dinheiro em caixa. Aliás, sem recursos não se faz absolutamente nada. Naquele momento, o Governo de Mato Grosso não tinha dinheiro nem para pagar salários; fornecedores estavam atrasados e havia mais de 370 obras paralisadas no estado. Nós tínhamos um verdadeiro caos instalado no final de 2018.
Diante disso, tomamos medidas duras, e todas elas tiveram impacto difícil, porque sabíamos que, em muitos casos, gerariam transtornos. Mas eu nunca tive dúvida de que todas eram necessárias e de que trariam, no futuro, não muito distante, resultados positivos para o governo e, consequentemente, para os cidadãos que vivem em Mato Grosso.
COPopular- Diante do cenário em que Mato Grosso saiu de uma grave crise fiscal e alcançou a nota máxima no Tesouro Nacional, um resultado considerado raro entre os estados, além das medidas difíceis e impopulares adotadas ao longo da gestão, quais o senhor considera terem sido as ações mais estruturantes e necessárias nesse processo, e de que forma esse avanço na credibilidade fiscal pode se traduzir em desenvolvimento concreto para o Estado?
Mauro- No início, entre as medidas importantes que nós tomamos, a primeira foi o aumento do FETAB. Passamos a cobrar um pouco mais dessa contribuição que o agronegócio mato-grossense destinava à infraestrutura e à habitação, que são áreas principais do Estado de Mato Grosso com esse tipo de recurso.
Também aumentamos o FETAB e promovemos a revisão dos incentivos fiscais, reduzindo parte desses benefícios concedidos a indústrias e ao comércio. Além disso, adotamos uma medida muito relevante, que foi a reorganização da previdência do Estado de Mato Grosso.
Com isso, conseguimos melhorar significativamente a performance das contas públicas, porque atuamos tanto na redução de despesas quanto no aumento de receitas. Quando aumentamos a receita e diminuímos as despesas, primeiro quitamos os passivos em atraso. Havia muitas contas pendentes no Governo do Estado de Mato Grosso e, a partir daí, começamos a formar uma poupança, transformando esses recursos em investimento.
O grande resultado veio justamente desse equilíbrio fiscal. E sem dinheiro não existe política pública, não existe investimento social, em educação ou saúde. Sem recursos, não se faz absolutamente nada, imagine um Estado cuidando da vida de milhões de pessoas.
Essas três medidas, o corte dos incentivos fiscais, o aumento do FETAB e a reforma previdenciária, associadas a outras ações, como um forte enxugamento da máquina pública, foram fundamentais. Reduzimos de 24 para 16 secretarias, cortamos cargos comissionados e fizemos uma série de ajustes nas despesas do governo para gerar economia e transformar esses recursos em investimentos que melhorassem a vida da população mato-grossense.
COPopular- Diante das realizações do seu mandato em Mato Grosso e da sua pré-candidatura ao Senado, como o senhor pretende conduzir a relação com Cuiabá, especialmente considerando os conflitos institucionais do passado com a Prefeitura e o novo cenário político no município?
Mauro- As minhas rusgas com o ex-prefeito Emanuel Pinheiro estão relacionadas ao comportamento que ele apresentava enquanto gestor. Havia, segundo minha avaliação, situações inadequadas na condução da administração, com episódios envolvendo escândalos de corrupção durante o mandato.
Foram sete ou oito secretários presos, além de diversas operações policiais que atingiram o primeiro escalão da Prefeitura de Cuiabá. Ao todo, foram quase duas dezenas de escândalos envolvendo a gestão municipal, o que me dava a nítida sensação de que as coisas não estavam sendo bem conduzidas.
Independentemente disso, o Governo do Estado de Mato Grosso realizou inúmeras obras dentro de Cuiabá. Eu nunca repassei recursos diretamente para a gestão do Emanuel Pinheiro, porque não confiava na sua capacidade de gestão e na sua honestidade para aplicar esse dinheiro.
Mesmo assim, o Estado asfaltou bairros, executou obras importantes como a extensão da região do Parque do Barbado e está construindo equipamentos relevantes, como o Parque Novo Mato Grosso. Também estamos construindo hospitais, dois grandes hospitais, sendo que um já foi inaugurado e o outro será entregue ainda este ano.
O Governo de Mato Grosso realizou diversas ações para beneficiar a população de Cuiabá, independentemente de eu gostar ou não do prefeito. Eu governei para a população, não para políticos.
Esse trabalho também foi estendido a outros municípios, como Várzea Grande, com ações como abastecimento de água, asfaltamento de bairros, iluminação pública e diversas outras iniciativas que alcançaram os 142 municípios do estado.
Se eu tiver a oportunidade de ser senador, vou atuar com a mesma seriedade e honestidade, entregando resultados. Por onde passei, sempre procurei deixar resultados concretos.
Eu não fico apenas em discurso ou conversa vazia. Muitos políticos fazem blá blá blá, mas não entregam resultados. Eu sou um homem de resultado, basta olhar o que foi feito ao longo da minha trajetória para encontrar entregas concretas.
COPopular- Em relação à gestão da Prefeitura de Cuiabá, atualmente sob o comando do prefeito Abílio Brunini, que avaliação o senhor faz desse primeiro ano e três meses de administração? Na sua opinião, ele tem conseguido entregar resultados e o senhor acredita que a gestão dele pode dar certo ao longo do mandato?
Mauro- Eu torço para que sim, torço para que ele dê certo. O Governo de Mato Grosso tem uma série de obras em andamento em Cuiabá. Nós lançamos agora quase R$ 600 milhões em investimentos no município. Escolas estão sendo construídas, o programa de asfaltamento segue em execução e há obras importantes, como o BRT, que está em andamento, além do Parque Novo Mato Grosso.
Também há intervenções no Hospital Júlio Müller e diversas ações de infraestrutura urbana, como a recuperação do asfalto da Avenida Miguel Sutil, Avenida dos Trabalhadores, Avenida Jurumirim e Avenida Monte Líbano. Estamos realizando recapeamento em vários bairros de Cuiabá, além de intervenções em vias estruturantes.
Outro destaque é a construção de uma nova ponte ligando Cuiabá a Várzea Grande, além de uma série de investimentos feitos pelo Governo do Estado, alguns diretamente executados e outros em parceria com a Prefeitura.
Eu torço muito para que todos os prefeitos tenham uma boa performance, inclusive o de Cuiabá, e acredito que ele pode ter, sim.
Agora, não é só com torcida. É com trabalho. É preciso fazer. Eu costumo dizer aos prefeitos que não existe “senhor do bom começo”, existe o “senhor do bom fim”. O que entra para a história não é quem começa a maratona na frente, mas quem chega bem ao final do mandato.
Não adianta começar fazendo muita propaganda. É preciso tomar decisões corretas e responsáveis. Não se deve tentar agradar todo mundo, mas sim fazer o que é certo.
Se você faz o que é correto na educação dos seus filhos, terá bons resultados na formação deles. Da mesma forma, um gestor público que toma decisões corretas colhe bons resultados. Caso contrário, decisões equivocadas acabam gerando consequências negativas, tanto na vida pessoal quanto na administração pública.
COPopular- Em relação à articulação eleitoral, como o senhor avalia a possibilidade de uma aliança do MDB na chapa do governador Otaviano Pivetta, considerando que há resistências dentro do PL a essa composição? Também há especulações sobre a indicação da deputada Janaina Riva como vice na chapa. O senhor teria alguma restrição em relação a esse nome, ou até mesmo a apoiaria para uma vaga ao Senado, mesmo considerando que ela fez oposição ao seu governo nos últimos anos?
Mauro- A deputada Janaina escolheu ir para a oposição. Se ela optou por isso, terá muita dificuldade, neste momento, em explicar para a população que estamos juntos. Eu não faço esse tipo de política de “uma hora bate, outra hora está dando beijinho”. Ou é papo reto: ou você é parceiro, ou não é parceiro.
Críticas não têm problema nenhum, desde que sejam críticas construtivas, inteligentes, baseadas em propósitos e ações de governo. Estamos muito tranquilos para recebê-las. Eu, inclusive, sempre elogio o deputado estadual Lúdio Cabral, porque ele sempre fez oposição, mas nunca vi ele fazer ataque ao governo ou ataques pessoais a mim ou à minha família.
Na política, nada vai depender só de mim. Trata-se de uma atividade coletiva. O atual governador, Otaviano Pivetta, é quem, no final do dia e ao longo do processo, terá a palavra final nessas articulações.
No entanto, vejo que o MDB e a própria Janaina teriam dificuldades em função do comportamento que ela apresentou nos últimos tempos.



