Da cozinha da casa da mãe para o reconhecimento no setor de eventos e gastronomia em Mato Grosso. A trajetória da empresária Jéssica Riva mistura empreendedorismo, alta gastronomia, valorização dos profissionais locais e, agora, os primeiros passos na vida política. Fundadora da Suis Marrie, empresa criada oficialmente em 2018, ela construiu espaço no mercado apostando em serviços personalizados, excelência no atendimento e valorização da mão de obra regional.
Em entrevista, Jéssica falou sobre os desafios de empreender em Mato Grosso, o preconceito enfrentado por empresas locais diante de referências de grandes centros, a importância da independência financeira feminina e os motivos que a levaram a considerar uma pré-candidatura à Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
Centro Oeste Popular – A criação da Suis Marrie foi oficialmente formalizada em 2018, mas como começou toda essa trajetória até a consolidação da empresa? Em que momento você percebeu que queria empreender justamente no setor da gastronomia, especialmente na alta gastronomia? Como aconteceu essa conexão com a gastronomia e o que despertou esse interesse em transformar isso em negócio?
Jessica Riva – Foi tudo muito natural. Comecei fazendo para familiares e amigos, sem imaginar que aquilo se transformaria em uma empresa. Quando decidi criar a marca, quis fazer uma homenagem à Nossa Senhora, porque sou muito católica, e assim surgiu o nome Suis Marrie, inspirado em “Sou de Maria”, algo que achei suave e elegante. Quando falo em alta gastronomia, não estou falando apenas de ingredientes caros, mas de excelência no atendimento, na qualidade da comida e na experiência entregue ao cliente. Sentia falta desse tipo de serviço em Mato Grosso e percebi uma oportunidade de fazer algo mais exclusivo e sofisticado. Na época, existiam poucos personal chefs no Estado e cada um tinha um nicho muito específico. Eu quis criar uma proposta mais versátil, trabalhando desde gastronomia sofisticada até pratos regionais, feijoadas, peixadas, comida cuiabana e também gastronomia árabe, que é uma das especialidades do buffet.
Centro Oeste Popular – Diante do cenário, acredita que ainda falta valorização dos profissionais e empresas de Mato Grosso? Muitas vezes os clientes se inspiram em referências de grandes centros, como São Paulo, mas esperam executar projetos semelhantes com custos muito menores. Como equilibrar qualidade, valorização da mão de obra e a expectativa do cliente sem desvalorizar os profissionais locais?
Jessica Riva – Quando falamos em qualidade, inevitavelmente existe um custo envolvido. Não porque essa seja a intenção, mas porque uma coisa está ligada à outra. Para oferecer um serviço realmente de excelência, faço questão de ter uma equipe suficiente e bem preparada, porque não quero apenas entregar um evento, quero que tudo aconteça da melhor forma possível e que todos sejam bem atendidos. Também faço questão de valorizar os profissionais que trabalham comigo, sem explorar ninguém. Acredito muito nessa relação honesta entre empresa e colaborador. E foi muito gratificante receber elogios de clientes dizendo que o atendimento parecia o de eventos em São Paulo. Para nós, em Mato Grosso, isso tem um peso muito grande, porque São Paulo acaba sendo uma referência no setor. Ao mesmo tempo, sempre defendo os profissionais e empresas daqui. Muitas vezes as pessoas querem um evento com padrão de grandes centros, mas com um orçamento muito abaixo da realidade. Mato Grosso tem serviços de excelência, profissionais extremamente qualificados, e acredito que precisamos valorizar mais o que é produzido no nosso Estado.
Centro Oeste Popular – A senhora acredita que os profissionais e empresas de Cuiabá ainda enfrentam uma desvalorização dentro do próprio mercado local, especialmente no setor de eventos e gastronomia? Muitas vezes existe a percepção de que serviços de excelência precisam vir de grandes centros, como São Paulo ou Rio de Janeiro. Na sua avaliação, esse cenário está ligado a preconceito, à falta de valorização do que é produzido aqui ou até aos desafios enfrentados pelos próprios empreendedores para se manterem competitivos e entregarem um serviço de alto padrão?
Jessica Riva – Acredito que existem duas realidades. Existe, sim, um certo preconceito com os profissionais daqui, mas também existe o fato de que, muitas vezes, o próprio mercado acabou entregando menos do que poderia. E faço essa meia-culpa, porque para sobreviver no mercado, muitas empresas acabam reduzindo custos e adaptando serviços para conseguir vender e continuar funcionando. Muitas vezes, não se trata nem de lucro, mas de conseguir se manter, pagar equipe, fornecedores e garantir que os colaboradores também tenham sua renda. Não é uma realidade fácil. Então, existe esse desafio de equilibrar qualidade, valorização profissional e sustentabilidade financeira dentro do mercado local.
Centro Oeste Popular – Com uma trajetória consolidada no empreendedorismo e reconhecimento profissional no mercado, o que motivou a olhar para a política e seguir a tradição política da família? Em que momento surgiu a decisão de se colocar como pré-candidata e o que fez a senhora mudar os planos da carreira empresarial para entrar na vida pública?
Jessica Riva – Na verdade, comecei a pensar na possibilidade de ser candidata agora, porque a vida pública sempre fez parte da minha trajetória. Estive presente tanto no período em que meu pai atuava como deputado quanto acompanhando o trabalho da Janaína. As pessoas acham que eu me filiei ao MDB recentemente pensando em candidatura, mas estou no partido há mais de 10 anos e já fui filiada a outras siglas também. Sempre acompanhei de perto a política e atuei de forma muito acessível com as pessoas. Tenho um grupo que já sabe que pode contar comigo em diversas situações, desde questões jurídicas até demandas do dia a dia. Isso sempre fez parte da minha rotina. A possível saída da Janaína também trouxe uma reflexão importante. Hoje, ela é a única mulher entre os deputados estaduais, e eu considero isso uma realidade preocupante para Mato Grosso. É muito difícil discutir políticas públicas voltadas para as mulheres em um espaço com tão pouca representatividade feminina. Quero ser deputada estadual, mas também quero ver outras mulheres ocupando esses espaços. Acredito que existe essa possibilidade neste próximo pleito e me coloco como sempre fui: uma pessoa disposta a servir e ajudar as pessoas.
Centro Oeste Popular – Em seus discursos, costuma defender o empreendedorismo feminino como ferramenta de transformação social. De que forma a qualificação profissional pode mudar a realidade financeira e pessoal das mulheres?
Jessica Riva – Muitas vezes existe uma omissão em relação às necessidades reais do dia a dia das pessoas, mas eu acredito que o mais importante é oferecer dignidade. Quando uma mulher tem um talento, como fazer unhas, por exemplo, ela pode transformar isso em profissão e conquistar independência financeira. Hoje existem profissionais nessa área que conseguem uma renda muito boa, e isso representa dignidade e autonomia para a mulher. A mulher precisa entender que pode ocupar espaços, empreender e construir sua própria história. Principalmente em uma realidade em que tantas ainda convivem com violência, assédio e insegurança. A independência financeira também é uma forma de fortalecimento. Sou prova de que é possível começar pequeno. Comecei cozinhando na cozinha da minha mãe, usando as panelas dela e comprando apenas os ingredientes para o primeiro evento. Aos poucos fui crescendo, chamei pessoas para trabalhar comigo e construí a empresa que tenho hoje, reconhecida no mercado. Muitas mulheres acreditam que precisam ter muito dinheiro para empreender, mas nem sempre é assim. Às vezes, o mais importante é começar com o que se tem e acreditar no próprio potencial.



