A disputa política em Mato Grosso já começa a ganhar contornos mais definidos rumo às próximas eleições, com articulações intensas tanto no campo majoritário quanto nas composições ao Senado.
Em entrevista, a ex-deputada federal Rosa Neide (PT) avaliou o cenário eleitoral no estado, projetou crescimento do presidente Lula em um reduto historicamente conservador, comentou os bastidores da construção de candidaturas e defendeu a ampliação de alianças dentro do campo progressista.
A petista também abordou temas como investimentos federais, ações na área da saúde e os assuntos envolvendo obras estruturantes, como o VLT e o BRT em Cuiabá.
Centro Oeste Popular –Em entrevista recente ao Olhar Direto, a senhora afirmou acreditar que o presidente Lula pode ultrapassar 40% dos votos em Mato Grosso, mesmo sabendo que é um estado historicamente considerado bolsonarista. No entanto, uma pesquisa divulgada pela Real Time Big Data, em 24 de março, apontou Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto e Lula com 30%. Com base em quais dados, análises ou percepções a senhora projeta esse crescimento do presidente Lula no estado?
Rosa Neide – Olha, o partido também trabalha com pesquisas internas, que complementam os levantamentos mais amplos. Acompanhamos esses dados de perto e observa, na prática, os investimentos que estão sendo realizados no estado. Hoje, os 142 municípios de Mato Grosso recebem algum tipo de investimento do governo federal. Com o fim da janela partidária e o início mais efetivo da pré-campanha, abre-se um novo momento político, em que os atores vão às ruas, intensificam o debate e apresentam comparações. E esse confronto de narrativas tende a pesar: de um lado, o que foi o governo anterior; de outro, o atual governo, a forma de gestão, a relação institucional com prefeitos, vereadores e também com o próprio governo do estado, que tem buscado parcerias com a União. Diante desse cenário, a tendência é de melhora na avaliação. Por isso, a projeção de crescimento existe. Na eleição passada, o presidente Lula teve cerca de 35% dos votos no estado, mesmo estando fora do mandato. Agora, como presidente, com a máquina pública em funcionamento, programas ativos e resultados para apresentar, há espaço para avançar. Mesmo com desafios, como a questão dos juros, há indicadores que o governo considera positivos, como o controle da inflação, o aumento do emprego e a melhora na renda.
Centro Oeste Popular – Estamos acompanhando uma mobilização em torno de dois nomes para a disputa ao Senado. Um deles já aparece mais consolidado, que é o do ex-ministro Carlos Fávaro. Ao mesmo tempo, a federação, junto com o PSD, tem dialogado sobre a composição dessa chapa. Em um primeiro momento, inclusive com a presença do presidente nacional do PT, Edinho Silva, foi sinalizada a possibilidade do ex-governador e ex-senador Pedro Taques como segundo nome. No entanto, surgiram resistências dentro do próprio PT, como a do deputado Lúdio Cabral e de outros quadros do partido. A senhora chegou a afirmar recentemente que ainda vê espaço para diálogo em torno do nome de Pedro Taques. Diante desse cenário, como está hoje essa construção dentro da federação para viabilizar o nome dele ao Senado?
Rosa Neide – De fato, essa definição ainda não está fechada. A discussão segue em andamento e tem sido tratada com bastante diálogo. Nós temos nos reunido semanalmente para avançar nesse debate. Além disso, estamos ouvindo o senador Carlos Fávaro e sua equipe política, avaliando todos os cenários possíveis. Existe hoje uma compreensão mais consolidada, inclusive em nível nacional, de que o campo ligado ao presidente Lula deve trabalhar com dois nomes ao Senado. No início, havia a possibilidade de candidaturas mais independentes, mas essa orientação foi sendo ajustada a partir de análises políticas mais amplas. Hoje, praticamente em todo o país, a diretriz é fortalecer duas candidaturas alinhadas ao projeto nacional. Nesse contexto, o ex-senador Pedro Taques, que está no PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin, também entra nesse diálogo. Ele tem, inclusive, mantido conversas com o próprio vice-presidente, o que demonstra essa aproximação política. A ideia é não deixar desarticulados aqueles que apoiam esse projeto. Por isso, a construção caminha para a formação de dois nomes competitivos. O ministro Carlos Fávaro é, naturalmente, uma prioridade, por toda a sua trajetória e por já ocupar hoje o mandato de senador. Já o segundo nome ainda está em debate.
Centro Oeste Popular – Considerando o histórico de rompimento entre essas lideranças, que vem desde o período do governo Pedro Taques, como a senhora avalia a construção do palanque nesse cenário? Há espaço para uma reconciliação entre esses atores visando a campanha? Existe a possibilidade de uma intervenção ou orientação da direção nacional para garantir unidade? E, diante disso, qual tende a ser o caminho: uma composição conjunta ou a manutenção de candidaturas distintas seja pelo PSB ou pelo PT?
Rosa Neide – Olha esse diálogo entre os dois nomes já está acontecendo no campo político. Os próprios candidatos já conversaram, e isso é importante. Política é construída assim, com diálogo direto, com franqueza, inclusive quando existem divergências. Já vimos situações parecidas antes. Dentro do próprio PT houve muita resistência, por exemplo, à escolha do Geraldo Alckmin como vice do presidente Lula. E o presidente Lula, com a experiência que tem, fez uma leitura política mais ampla, destacando o papel institucional, o compromisso com a democracia e a capacidade de construção. Nesse cenário, tanto o ministro Carlos Fávaro quanto o ex-senador Pedro Taques têm colocado pontos que dialogam entre si, especialmente na defesa da democracia, da Constituição e de um projeto nacional. Caso não haja consenso, é natural que outras alternativas surjam dentro desse grupo. A política também prevê isso: quando não há unidade, abre-se espaço para novos nomes.
Centro Oeste Popular – Recentemente, o governo federal realizou uma ação com a carreta da saúde em Várzea Grande, enquanto Cuiabá não recebeu a mesma iniciativa. Na avaliação da senhora, essa diferença de articulação pode ter relação com alinhamento político, especialmente pelo fato de a gestão local ser do PT? Houve algum tipo de priorização nesse sentido?
Rosa Neide – Nessa ação, muitas pessoas de Cuiabá atravessaram a ponte para serem atendidas em Várzea Grande, assim como moradores de outras cidades da região. Isso mostra que a carreta não atende gestão, atende a população. O que acontece é que há prefeitos e prefeitas que acolhem a iniciativa, organizam o espaço e dão o suporte necessário. Eu mesma estive na abertura e vi toda a estrutura sendo disponibilizada para garantir o atendimento. O objetivo dessas ações é justamente reduzir filas, especialmente em áreas mais sensíveis, como a saúde da mulher. É uma estratégia para dar agilidade e resolver a demanda reprimida. Temos várias carretas em funcionamento, com diferentes especialidades, em todo o país. E Cuiabá pode, sim, receber esse atendimento. Basta que haja interesse e articulação por parte da gestão municipal, fazendo o chamamento e oferecendo as condições necessárias. O governo federal não faz distinção. Prova disso são os investimentos que já estão em andamento em Cuiabá, como o Minha Casa, Minha Vida e o Rodoanel. Logo no início do governo, foram destinados cerca de 500 milhões de reais para obras via Ministério dos Transportes. Ou seja, o governo está presente. O que houve, em alguns momentos, foi uma sinalização contrária por parte da gestão municipal, dizendo que não precisava desse apoio. Mas a população precisa, e é isso que deve estar acima de qualquer posicionamento político.
Centro Oeste Popular –Deputada, ontem o presidente Lula comentou sobre a questão do VLT e do BRT, citando inclusive que andou no VLT da Bahia com vagões que vieram de Mato Grosso, enquanto aqui o BRT ainda não foi concluído. Na fala, ele sugeriu que decisões sobre obras podem ter sido influenciadas por disputas políticas, classificando isso como irresponsabilidade. Como a senhora avalia essa declaração? Na sua visão, a mudança do VLT para o BRT em Mato Grosso foi uma decisão técnica ou política? E, diante do cenário atual, como a senhora analisa o fato de o estado ainda não ter concluído nenhuma das duas soluções?
Rosa Neide – Costumo brincar que, quando vemos as obras na cidade e os transtornos no trânsito, parece que Cuiabá ainda está na Copa do Mundo de 2014. Já se passaram anos, tivemos outros grandes eventos, e ainda convivemos com os reflexos daquele período. Isso mostra que houve falhas importantes de planejamento. Se o VLT não atendia às expectativas da cidade e existem argumentos sobre o custo elevado e o tamanho da população, então foi um erro planejar e iniciar uma obra dessa magnitude para depois mudar completamente o projeto. Estamos falando de trens importados, adquiridos com recursos federais ainda na época da presidenta Dilma. Inclusive, parte desses equipamentos foi destinada à Bahia, e tudo isso envolve dinheiro público federal. É importante deixar claro que muitos dos recursos aplicados ali são federais. Às vezes se cria a ideia de que são investimentos exclusivamente estaduais ou municipais, mas não é bem assim. Por isso, o planejamento precisa vir antes de decisões desse porte. Hoje já existem modais mais modernos e eficientes sendo utilizados em outros países. Cuiabá merece ter um sistema de transporte à altura. Se a obra do VLT foi iniciada, por que não foi concluída? A crítica do presidente Lula vai justamente nesse ponto: a descontinuidade de políticas públicas por motivos que não são técnicos. O resultado é o que vemos hoje: uma cidade que ficou anos com obras inacabadas, impactos no trânsito e um custo não só financeiro, mas social muito alto para a população. E é importante dizer que não se trata de responsabilizar apenas o atual governo. Foram erros acumulados ao longo de diferentes gestões, com decisões equivocadas e participação de diversos atores políticos. No fim, quem perdeu foi Mato Grosso e Cuiabá. Agora, a expectativa é que o BRT seja finalmente concluído e entregue à população, ainda que com muitos anos de atraso. Essa situação reforça uma lição básica: obras públicas precisam ser bem planejadas desde o início, porque, quando isso não acontece, o prejuízo recai diretamente sobre a população.



