Em meio a um cenário político marcado por intensas movimentações partidárias, reposicionamentos estratégicos e um eleitorado cada vez mais crítico à polarização, o tabuleiro eleitoral de Mato Grosso começa a se redesenhar de forma significativa.
A proximidade das eleições, somada às novas regras eleitorais e às transformações no comportamento político, impõe desafios não apenas para os partidos, mas também para lideranças que buscam se firmar com base em resultados concretos e capacidade de diálogo.
Nesse contexto, o ex-ministro da Agricultura e ex-deputado federal Neri Geller, que analisa as mudanças no cenário político, o fortalecimento de partidos de centro, o papel das redes sociais na disputa eleitoral e os caminhos para uma atuação política mais pragmática e menos ideológica.
Centro Oeste Popular – Diante do cenário atual, observa-se uma movimentação partidária bastante intensa e, de certa forma, atípica, com trocas frequentes de sigla por parte de políticos com mandato. Embora esse tipo de articulação seja comum durante as janelas partidárias, especialmente em anos eleitorais, neste momento ela ocorre com ainda mais força. Além disso, há uma dificuldade visível dos partidos em estruturar suas chapas, com poucos conseguindo apresentar composições já consolidadas. Muitos nomes circulam simultaneamente em diferentes legendas, o que evidencia um ambiente político ainda indefinido. Nesse contexto, e considerando também episódios recentes de filiações e rearranjos partidários, o Mato Grosso caminha para uma mudança significativa em sua representação política após essas eleições? Há sinais de possíveis reconfigurações, como o crescimento de algumas siglas, o enfraquecimento de outras e até a possibilidade de fragmentação em determinados grupos. Na sua avaliação, como deve se desenhar o cenário político do estado a partir desse processo eleitoral?
Neri Geller – Acredito que boa parte dessa movimentação se deve à consolidação do fim das coligações nas eleições proporcionais. Com isso, cada partido passou a precisar montar chapas mais fortes, com densidade eleitoral suficiente para alcançar o coeficiente e eleger seus representantes, sejam deputados federais ou estaduais. Esse cenário já começou a se desenhar na eleição passada, que foi a primeira sem coligações na proporcional, e trouxe resultados emblemáticos. Um exemplo foi o da deputada Rosa Neide, que teve mais de 124 mil votos e, ainda assim, não se elegeu por falta de coeficiente partidário. Pela regra atual, em uma situação semelhante, ela poderia ter sido eleita, considerando também as mudanças que ampliaram as possibilidades dentro das chamadas “sobras”, levando em conta desempenho individual e percentual mínimo de votos. Além disso, esse movimento também é impulsionado pelo acirramento do debate ideológico, que faz com que muitos busquem se reposicionar dentro do espectro político. Tenho observado que partidos que procuram se afastar da polarização e se posicionar mais ao centro acabam sendo mais procurados. Para quem tem responsabilidade pública, esse caminho faz sentido, pois, é preciso retomar o diálogo e focar em discutir soluções concretas para a população, e não ficar restrito apenas ao embate ideológico. Foi dentro dessa linha, inclusive, que busquei meu espaço político.
Centro Oeste Popular – A sociedade tem demonstrado um certo cansaço em relação à polarização política, especialmente diante de discursos mais voltados para as redes sociais do que para resultados concretos na prática. Muitas vezes, há uma percepção de distanciamento entre o que é apresentado publicamente e o que, de fato, é realizado no exercício do mandato. Ao longo da sua trajetória, você acumulou experiência em diferentes esferas. Nesse sentido, considerando que a polarização também impacta diretamente o ambiente econômico, como você avalia esse cenário dentro do seu partido hoje? Observando que o Republicanos vive um novo momento, com o fortalecimento de lideranças e a possibilidade de ampliar seu protagonismo político. Diante disso, como está o nível de mobilização e engajamento da sigla atualmente? E de que forma o partido busca se posicionar e crescer sem se apoiar excessivamente na lógica da polarização?
Neri Geller – Tenho muito orgulho de afirmar que sempre tive firmeza para discutir e dialogar, inclusive com a imprensa tradicional, que considero fundamental para levar informação de qualidade à população, com base em fontes confiáveis. As redes sociais, como o TikTok, têm sua importância, mas acredito que as pessoas estão cada vez mais criteriosas na forma de consumir esse tipo de conteúdo. Ao longo da minha trajetória, sempre fui um parlamentar de resultados e também uma liderança ativa no campo classista, desde a década de 1990, quando participei da emancipação de Lucas do Rio Verde, atuando na associação comercial como diretor. Depois, segui como coordenador de núcleo da Aprosoja, vice-presidente da entidade, deputado federal, secretário de Política Agrícola e ministro. Em todos esses momentos, nunca abri mão de me posicionar com clareza, dizendo sim ou não quando necessário, sem buscar protagonismo vazio ou discussões sem fundamento nas redes sociais. Durante minha atuação, entregamos resultados concretos, mesmo em governos com visões ideológicas diferentes. No governo da presidente Dilma, por exemplo, criamos importantes programas de crédito e estruturamos bases fundamentais para o desenvolvimento logístico, como a organização portuária de Miritituba. Já no governo do presidente Michel Temer, ao lado do ministro Blairo Maggi, reorganizamos o seguro agrícola, que estava atrasado, e o colocamos em dia, beneficiando diretamente a produção, especialmente no Centro-Oeste. Também viabilizamos mais de 3 bilhões de reais em garantia de preço mínimo, impulsionando tanto a primeira quanto a segunda safra de milho, além de avançarmos na pauta da industrialização do etanol e na abertura de mercados internacionais, como Irã, Arábia Saudita e Egito, que absorveram parte significativa da produção de Mato Grosso.
Centro Oeste Popular – E, sobre a questão partidária, há uma percepção de que o Republicanos tem buscado se diferenciar ao adotar uma postura mais pragmática e responsável, tratando a política com seriedade, sem se apoiar excessivamente em discursos voltados apenas para engajamento nas redes sociais. Dentro desse contexto, como o senhor avalia esse posicionamento do partido? Essa estratégia tem, de fato, contribuído para fortalecer a credibilidade da sigla e ampliar seu espaço no cenário político?
Neri Geller – Nessa mesma linha que mencionei anteriormente, o Otaviano Piveta também segue esse perfil. Fui vereador em Lucas do Rio Verde por oito anos, período em que ele foi prefeito, então o conheço bem. Algumas pessoas podem considerá-lo mais retraído, mas esse é o estilo dele: é sim quando é sim, é não quando é não. Trata-se de uma liderança visionária, com segurança tanto no que fala quanto no que faz, e isso reflete o perfil do Republicanos. Também vim para o partido a convite de lideranças como o Saquetti, o próprio vice-governador e o Tarcísio, que foi meu colega quando presidia o DNIT, na época em que fui ministro da Agricultura, ainda em um governo do PT, em um contexto bem diferente do atual. A política passa por ajustes ao longo do tempo, e vejo que o Republicanos hoje tem um perfil de centro-direita com o qual me identifico e no qual me encaixo bem.
Centro Oeste Popular – O senhor foi ministro durante o governo Dilma Rousseff. Na sua avaliação, o fato de ter integrado aquela gestão pode influenciar, de alguma forma, a sua candidatura a deputado federal, especialmente diante do cenário político atual?
Neri Geller – Ninguém fez tanto quanto eu, modéstia à parte, pela agricultura do Estado de Mato Grosso quando estive como ministro no governo do PT. Criamos grandes programas de financiamento, políticas de garantia de preço mínimo e fortalecemos o seguro agrícola, sendo que os primeiros 400 milhões de reais foram destinados a essa área. Quando fui secretário de Política Agrícola, cheguei ao cargo com apoio de setores conservadores de Mato Grosso, como Aprosoja, Ampa e Famato, além do respaldo da Frente Parlamentar da Agropecuária. Posteriormente, durante o governo do presidente Bolsonaro, também contribuí de forma significativa, atuando como vice-líder da bancada e ajudando a dar estabilidade em momentos importantes, como na eleição de Arthur Lira. Tenho tranquilidade para afirmar à população que, quando votamos a lei do licenciamento ambiental, foi porque atuei como relator e tive capacidade de dialogar com a direita, com o centro e, principalmente, com a esquerda para construir maioria. Na política, é possível pensar diferente e, ainda assim, convergir em objetivos comuns, que são melhorar a vida da população. O parlamentar que realmente quer trabalhar precisa focar em resultado. Quem passa o tempo todo brigando e atacando pode até ter visibilidade nas redes sociais, mas não entrega resultado prático. Desafio qualquer parlamentar a debater e comparar resultados do que foi feito no período em que estive no Congresso Nacional. Não tenho dificuldade em discutir temas como liberdade econômica, Fiagro, abertura de mercado, logística e crédito com qualquer parlamentar ou ministro.
Centro Oeste Popular – Diante desse cenário, o senhor se sente preparado para enfrentar esse desafio de comunicação? É possível prever uma disputa mais acirrada entre candidatos com forte apelo ideológico nas redes sociais e aqueles que se apresentam como gestores, focados em eficiência administrativa, mas que nem sempre têm a mesma presença ou facilidade nesse ambiente digital. Considerando que as redes sociais devem ter um papel decisivo nas próximas eleições, como o senhor avalia esse contraste de perfis? Na sua visão, será um desafio maior para candidatos com estilos tão distintos conseguirem se conectar de forma eficaz com o eleitorado?
Neri Geller – Na minha leitura, só vale a pena se eleger politicamente se for dentro das próprias convicções, e não abro mão disso. Saí de uma trajetória simples, como frentista de posto e catador de raiz, até me tornar vereador, deputado federal e ministro da Agricultura, e acredito que tenho capacidade de convencer as pessoas pela força do trabalho. Fui eleito deputado federal com 73 mil votos, sendo o quarto mais votado, mesmo sem ter o volume de serviços prestados que tenho hoje. Estou presente, andando, preparado, e não tenho preguiça de ir para a base, para a ponta, visitando bairros em Cuiabá. Os números mostram que a minha consistência eleitoral é forte, e se vou ganhar ou perder, isso quem vai dizer são as urnas.



