O XIX Congresso Estadual do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT) reservou um espaço exclusivo para crianças, apelidado de “Congressinho”, para permitir que mães e pais participassem das atividades do evento. Ao longo de quatro dias, cerca de 60 crianças de até 12 anos ficaram no local, acompanhadas por monitores.
A medida joga luz sobre um problema recorrente no cotidiano de quem trabalha na educação: embora as mulheres representem cerca de 86% da categoria, a maternidade ainda pesa na possibilidade de debates, formações e espaços de decisão. A falta de creches, de apoio institucional e de alternativas de cuidado segue afastando professoras de atividades que impactam diretamente suas carreiras.
A professora e delegada sindical Débora Diaz Sancorel, da rede municipal e estadual de Barra do Bugres, é mãe de três crianças pequenas. Ela relata que já precisou abandonar cursos de formação por não ter com quem deixar os filhos. “Me pediram para não levar as crianças, mesmo quando a atividade era à noite ou no contraturno escolar. Sem rede de apoio, eu desisti”, contou. Para ela, o espaço infantil no congresso viabilizou a participação. “Consegui acompanhar as discussões com mais tranquilidade.”
Durante o evento, o “Congressinho” ofereceu atividades recreativas como pintura facial, oficinas de slime, confecção de tranças, pintura em telas e produção de pipas. Maria Clara, de 10 anos, que participou com o irmão Max, de 8, acompanhando a avó delegada sindical de Alto da Boa Vista, aprovou a experiência. “A gente brincou bastante e fez várias atividades. Queremos voltar no próximo”, disse.
Apesar do caráter pontual da iniciativa, o tema do cuidado infantil aparece como um gargalo estrutural. Educadoras ouvidas pela reportagem relatam que a ausência de políticas permanentes de acolhimento em eventos, cursos e reuniões segue sendo um fator de exclusão indireta, sobretudo para mães solo e famílias sem rede de apoio. A experiência do congresso reacende o debate sobre como garantir participação plena em espaços públicos sem transferir o custo do cuidado exclusivamente para as mulheres.



