A queda de 0,67% no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) em março ligou o sinal de alerta no mercado financeiro e reforçou a percepção de que os juros elevados começam, aos poucos, a esfriar a economia brasileira.
Considerado uma espécie de prévia do Produto Interno Bruto (PIB), o indicador veio pior do que o esperado pelos analistas, que projetavam retração de 0,40% no mês. Apesar disso, o avanço acumulado de 1,3% no primeiro trimestre de 2026 mostra que a atividade econômica ainda segue resistente, sustentada principalmente pelo mercado de trabalho aquecido e pelo aumento da renda das famílias.
O resultado mais fraco de março, no entanto, indica que a economia começou a perder força no fechamento do trimestre.
Segundo análise do Goldman Sachs, o Brasil enfrenta atualmente forças opostas. Enquanto programas de transferência de renda, estímulos fiscais e o mercado de trabalho continuam impulsionando o consumo, os juros altos, a inflação persistente e o endividamento das famílias devem limitar o crescimento nos próximos meses.
Os dados do Banco Central mostram que a desaceleração atingiu praticamente todos os setores da economia. O setor de serviços, responsável por cerca de 70% da atividade econômica brasileira, teve a maior retração mensal, com queda de 0,8%. A indústria e a agropecuária também registraram desempenho negativo.
Leonardo Costa, economista da ASA, afirmou que o resultado foi amplamente disseminado entre os segmentos econômicos, mas os serviços tiveram peso decisivo na retração do indicador.
Já Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, destacou que, sem o impacto positivo do agronegócio, a retração da atividade teria sido ainda mais intensa.
Apesar do freio em março, analistas ressaltam que o crescimento acumulado no trimestre ainda foi forte. Rodolfo Margato, economista da XP, afirmou que a expansão de 1,3% foi a maior desde o terceiro trimestre de 2024.
Segundo ele, programas de renegociação de dívidas e medidas de estímulo ao crédito devem continuar sustentando parte do crescimento econômico em 2026.
Mesmo assim, o cenário segue delicado para o Banco Central. Especialistas avaliam que a combinação entre inflação resistente e atividade ainda aquecida reduz o espaço para cortes rápidos na taxa Selic.
Pablo Spyer afirmou que o mercado interpreta os números com cautela: embora a desaceleração econômica possa aliviar parte da pressão inflacionária, a piora recente nas expectativas de inflação mantém o Banco Central em posição defensiva.
A preocupação é reforçada pelas projeções do relatório Focus, que elevaram a expectativa da Selic para o fim de 2026 para 13,25%. O IPCA projetado para o próximo ano também subiu para 4,92%, acima do teto da meta de inflação.
Economistas avaliam que o principal foco agora será o comportamento da inflação de serviços, considerada um dos principais termômetros da força do consumo no país.
Mesmo com o cenário mais desafiador, instituições financeiras ainda projetam crescimento positivo para a economia brasileira em 2026. O Goldman Sachs calcula um carrego estatístico positivo de 1,15% para o PIB do ano. Já a XP projeta crescimento de 2%, enquanto a Suno Research estima expansão de 1,8%.



