Uma pesquisa realizada por cientistas brasileiros identificou, pela primeira vez no país, a presença de bactérias do gênero Flavobacterium, responsáveis pela columnariose, uma das enfermidades mais severas que atingem peixes cultivados para consumo. A descoberta amplia a atenção sobre a saúde dos plantéis aquícolas, já que esses microrganismos eram conhecidos por causar surtos em outros países, mas ainda não haviam sido registrados oficialmente em criatórios brasileiros.
A doença afeta principalmente a tilápia, espécie que lidera a produção nacional de pescado cultivado, mas também foi encontrada em peixes nativos de importância comercial, como tambaqui, pacu, lambari e pintado-da-amazônia. A identificação dos patógenos demonstra que a enfermidade pode atingir um número maior de espécies do que se imaginava.
A columnariose compromete a pele, as nadadeiras e as brânquias dos animais. Os peixes infectados desenvolvem lesões esbranquiçadas, sofrem danos nos tecidos e podem morrer rapidamente, sobretudo nas fases iniciais de desenvolvimento, quando ainda são larvas ou alevinos e apresentam maior vulnerabilidade.
Durante o estudo, os pesquisadores isolaram diferentes cepas bacterianas e verificaram que algumas espécies, antes associadas apenas à infecção em tilápias, também estavam presentes em peixes nativos criados para abastecer o mercado. Outra descoberta importante foi a identificação de uma espécie bacteriana em um pintado-da-amazônia, indicando que o agente infeccioso possui capacidade de atingir grupos distintos de peixes.
As análises também mostraram que esses microrganismos estão adaptados às temperaturas encontradas nas águas brasileiras. Em laboratório, algumas espécies apresentaram melhor desenvolvimento em temperaturas semelhantes às registradas nos viveiros do país, enquanto outras tiveram crescimento ainda mais intenso em ambientes mais quentes, o que pode favorecer sua disseminação em cenários de aumento da temperatura da água.
Outro aspecto observado pelos cientistas foi a elevada capacidade das bactérias de formar biofilmes, uma estrutura que funciona como uma barreira protetora e aumenta sua resistência. Esse mecanismo permite que os microrganismos permaneçam vivos mesmo em condições desfavoráveis, retomando a multiplicação quando o ambiente volta a oferecer condições adequadas.
Segundo os pesquisadores, esse comportamento torna ainda mais importante a adoção de protocolos rigorosos de limpeza, higienização e desinfecção de tanques, redes, equipamentos e demais estruturas utilizadas no manejo dos peixes, reduzindo o risco de permanência das bactérias nas propriedades.
Os resultados também apontam perspectivas para o controle da doença. Trabalhos científicos já indicam que bactérias do gênero Flavobacterium apresentam baixa resistência à salinidade, o que pode abrir caminho para o uso controlado de sal na água como medida complementar de prevenção. Entretanto, ainda são necessários estudos para definir concentrações seguras para cada espécie de peixe.
Paralelamente, os pesquisadores desenvolvem análises genéticas das bactérias identificadas com o objetivo de criar vacinas específicas para os patógenos encontrados nos criatórios brasileiros. Entre as alternativas avaliadas está a produção de imunizantes personalizados, capazes de oferecer proteção de acordo com as cepas presentes em cada sistema de cultivo.
A expectativa é que essas estratégias contribuam para reduzir perdas econômicas na piscicultura, fortalecer a biossegurança das propriedades e garantir maior segurança sanitária na produção de peixes destinados ao consumo humano.



